Natanael é um daqueles que foram chamados para o início da caminhada junto com Jesus. Entra para o grupo de Jesus após receber o anúncio da novidade por Filipe e da tomada de decisão de ir até esse possível Messias e confrontar a sua percepção religiosa (era bom conhecedor das expectativas de Israel sobre a chegada do Messias) e a chegada de alguém que veio de onde não deveria ter vindo.
Esse processo que Natanael faz é em grande parte o processo que cada um e todos deveríamos fazer no que tange ao crescimento do dom da fé.
Em primeiro lugar, existe uma poesia simbólica na narrativa: Natanael se encontra debaixo da figueira como quem vive os dias na esperança de encontrar figos ou algo que o faça ir adiante. Estar debaixo dessa figueira pode ser o nosso cotidiano que num primeiro momento, aparenta ser natural e normatizado pelos dias que se sucedem, mas profundamente, revela nosso acomodar-se fisicamente naquilo que as ideias pensam e que nem sempre se coadunam com a realidade.
É estranho observar o quanto que esse ficar debaixo da figueira tornou-se ponto de referência para muitos e, dentro das especificidades de cada um, foi também nos mantendo paralisados à espera ignorando o fato que melhor encontra quem faz a hora...
Nos prendemos às ideias e fazemos de tudo para que a realidade em algum momento caiba nesses padrões mentais e fiquem à nossa disposição para apenas e tão somente confirmarem o que já sabíamos antes enquanto aguardávamos e esperávamos debaixo da figueira.
Depois tem a chegada dos arautos que se aproximam de nós cotidianamente com novidades mil. Passam nos dizendo que encontraram a dieta milagrosa, o remédio curador, o lugar mais lindo, o produto mais bem acabado, a aplicação financeira mais rentável e até o messias do momento. Passam e nos anunciam porque gostariam que saíssemos do lugar comum. Anunciam com alegria e esperam que entremos no barco onde se encontram.
Nem sempre dá para acreditar no que dizem...
Nem tudo precisa ser provado para ser crido ou descrido.
Mas esse é o processo de desalojamento: a novidade dos acontecimentos servem para nos tirar no comodismo que imobiliza.
Porém, alguns desses anúncios merecem e precisam ser conferidos. Porque deles dependem nossa vontade de viver e nossas escolhas de caminhos.
Natanael parece saber fazer essa distinção: diante do anúncio de que encontraram o Messias esperado, mesmo incrédulo, sai e vai ver porque essa verdade se comprovada ou não, poderá determinar os passos que dará na sua vida ficando ou saindo debaixo da figueira.
E Jesus entende isso e elogia: eis aí um homem sem falsidade!
Porque sem falsidade?
Pelo simples fato de perceber a importância do anúncio recebido de Filipe e ter coragem de ir em busca de respostas, aceitando assim amadurecer a sua progressão na fé.
De incrédulo, Natanael passa a ser o homem que também reconhece em Jesus e no seu projeto o sinal da salvação que vem de Deus e que, em última instância, nada mais é do que senão o sinal da chegada do Messias quebrando assim suas percepções mediatizadas pelos ensinamentos religiosos e redimensionando o fato e os acontecimentos que os antigos lhe ensinaram.
Nessa perspectiva cabe a quem medita esse evangelho também aprofundar os seus questionamentos sobre o que se crê, como se crê e onde está o ponto de encontro das ideias com a realidade não para se alterar as significações pura e simplesmente, mas para permitir que os processos mentais não fiquem presos e nem nos prendam debaixo das figueiras acomodando verdades que nem sempre se confirmam na realidade.
Eu sei que você fica temeroso em pensar isso. E sei também o quanto muitos vão dizer que isso beira à heresia. Mas creia, não tem nada mais saudável do que viver sua vida sem falsidade e por cheque nossas ideias a partir da realidade que nos educa, orienta e move sempre.
Fiquem bem.
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