segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O FUTURO REPETE O PASSADO?

 A liturgia dessa segunda feira nos propõe como evangelho de meditação o texto de Lucas capítulo 4 onde Jesus dá início à sua vida pública. E é um texto profundo, bonito e cheio de nuances que podem nos ajudar a pensar e refletir sobre os acontecimentos da história da salvação, mas também e porque não, sobre a nossa realidade e condição.

Em primeiro lugar, faço uma constatação: Lucas parece fazer questão de apresentar Jesus  com uma série de ligações favoráveis para sua missão. Segundo o texto, ele está na sua terra, na sinagoga e é num dia de sábado.

O que significa isso?

Que aparentemente, tudo concorre para que Jesus faça "sucesso" e sua missão dê muitos frutos. Afinal, está com sua gente, no espaço religioso mais importante na comunidade e em sintonia com a tradição da lei mosaica.

Outro fator importante é que Lucas sinaliza que Jesus "fala" com a Palavra. Ele não lê apenas mas é capaz de ler, interpretar e aplicar. Por isso, com muito respeito e profunda consciência, diz que aquilo que acabara de ser lido se cumpre hoje nele. (para Lucas o tempo do hoje é um conceito fundamental para entendermos a boa- nova).

Tudo parecia mais do que correto. Tudo parecia estar favorável a esse início da missão. O que dá errado então?

Em primeiro lugar, seus conterrâneos se lembram que Jesus era dali, filho de José e portanto, alguém como eles. Não é de hoje que as pessoas sempre preferem encontrar seus representantes em pessoas que não os lembrem quem são e ou de onde vieram...

Depois, tem uma espécie de cena comprobatória: querem que Jesus realize ali o que dizem que ele andou realizando em outros lugares. Por trás disso está o desejo de acreditar após terem as provas. E olhando teologicamente para as ações de Jesus podemos afirmar que nunca ele fez coisas para confirmar sua missão, mas sim para traduzir a bondade e misericórdia de Deus para salvar seu povo.

Ainda tem o fato de que Jesus mexe numa espécie de ferida do povo judaico. Elias foi enviado a uma viúva pagã de Sarepta. Eliseu curou um leproso sírio apesar de se ter inúmeros doentes na sua terra.

Parece algo banal, não é mesmo?

Mas esses acontecimentos revelam que a salvação que vem de Deus não estava restrita apenas aos judeus coisa insuportável naquele momento histórico do judaísmo pois havia um nacionalismo exacerbado e uma ruptura com qualquer possibilidade de Deus amar também quem não era judeu.

Isso enfurece os conterrâneos e os motiva a tentar se livrar de Jesus. Querem matá-lo e com isso, silenciar uma voz que pode questionar e ajudá-los a aprofundar a sua experiência de Deus.

Voltando ao início desse texto, podemos perceber que as condições tidas como favoráveis para que tudo aconteça com enorme sucesso para Jesus caem por terra após o início de um aprofundamento daquilo que se crê e como se crê.

Não me lembro de qual música, mas tem um verso que diz EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO... e que diz muito daquilo que vivemos hoje.

Fiquem bem.

sábado, 29 de agosto de 2020

HELDER, UM DOM

 Ivanir Antonio Rampon, teólogo, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e professor do Itepa Faculdades. in IHU



 É com muita alegria que celebro/celebramos a vida e o legado espiritual que o Servo de Deus e dos Pobres, Dom Hélder Pessoa Câmara, nos deixou: deixou para a Igreja de Cristo e para todos os que sonham por um mundo de irmãos.

Nesta data (27-8-2020) em que fazemos a memória dos 21 anos de seu falecimento, que palavras fortes podemos comentar? Podemos falar muito de Dom Helder, mas pensei em comentar três palavras: ServiçoPobresProfecia. E vou fazer isto comentando três episódios da vida do Dom.

Serviço

Quando Helder tinha entre sete a nove anos, o seu pai lhe disse algo inesquecível e que ele sempre procurou viver: “Filho, você está crescendo e continua a dizer que quer ser padre, mas você sabe de verdade o que significa ser padre?” O menino ficou quieto, meio acabrunhado com o questionamento do pai, que prosseguiu: “Você sabia que para uma pessoa ser padre ela não pode ser egoísta, não pode pensar só em si mesma? Ser padre e ser egoísta é impossível, eu sei, são duas coisas que não combinam”. Atento, Helder não sabia o que dizer. O pai continuou: “Os padres acreditam que quando celebram a Eucaristia é o próprio Cristo que está presente. Você já pensou nas qualidades que devem ter as mãos que tocam diretamente no Cristo?”. Helder, convicto, disse: “Pai, é um padre como o senhor está dizendo que eu quero ser”. “Então filho” – disse o pai – “que Deus te abençoe! Que Deus te abençoe! Você sabe que não temos dinheiro, mas, mesmo assim, vou pensar como ajudá-lo a entrar no seminário”.

Helder aprendeu e sempre buscou viver isto. O Padre não se pertence. Ele pertence a Deus para servir o Povo de Deus. É um homem para servir. Isto significa que não vive buscando honras, aplausos, fama, comodidades individualistas, vaidades pessoais de todo o tipo. Como muito bem disse o querido Papa Francisco, é uma pessoa descentralizada. Helder se fez para nós, o Dom do Serviço.

Pobres

No ano de 1955 aconteceu no Brasil, o Congresso Eucarístico Internacional. Este foi organizado por Dom Helder e sua equipe maravilhosa. O Cardeal Gerlier, de LiãoFrança, que acompanhara os trabalhos de Dom Helder na organização do Congresso Eucarístico, concluiu que não era razoável que a capacidade desse Bispo brasileiro ficasse presa à organização de megaeventos religiosos. Por isso, antes de retornar à França, quis um colóquio com ele, a fim de elogiá-lo, mas muito mais para lhe lançar um apelo:

Permita-me falar-lhe como um irmão, um irmão no batismo, um irmão no sacerdócio, um irmão no episcopado, um irmão em Cristo. Você não acha que é irritante todo este fausto religioso em uma cidade rodeada de favelas? Eu tenho certa prática em organização e por ter participado desse Congresso devo dizer-lhe que você tem um talento excepcional de organizador. Quero que faça uma reflexão: por que, querido irmão dom Hélder, não coloca todo este seu talento de organizador que o Senhor lhe deu a serviço dos pobres? Você deve saber que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas do mundo, mas também uma das mais espantosas, porque todas essas favelas, neste quadro de beleza, são um insulto ao Criador...

O Cardeal sensibilizou Dom Helder que interpretou aquelas palavras como um novo desafio. Pegando e beijando as mãos do Cardeal, disse-lhe: “Este é um momento de virada em minha vida. O senhor poderá ver minha consagração aos pobres. Não estou convencido de possuir dotes excepcionais de organizador, mas todo o dom que o Senhor me confiou colocarei ao serviço dos pobres”.

A partir daquele dia, as visitas às favelas começaram a ser frequentes e estas se converteram em sua preferência pastoral. Quando Bispos e Cardeais o visitavam, ele os recebia com grande cordialidade e os levava para um passeio. O principal lugar a conhecer não era mais a Catedral de São Sebastião ou o Corcovado – de onde se contempla uma das paisagens mais belas do mundo. Ele tornou-se cada vez mais o Dom dos Pobres.

Quando foi Recife e assumiu a missão de Arcebispo Metropolitano, a sua primeira visita Pastoral foi para os Mocambos. Quando o Papa Francisco assumiu a missão de Sucessor de Pedro a sua primeira visita Pastoral foi para Lampedusa. Aliás, são muitas as coincidências entre as palavras e os gestos de Dom Helder e do Papa Francisco. Quase repetindo as palavras de Dom Helder disse o Papa: “Quando peço terra, teto e trabalho para os necessitados alguns me acusam dizendo que ‘o Papa é comunista’! Não entendem que a solidariedade com os pobres é a base mesma do Evangelho”. Portanto, Helder se fez para nós o Dom dos Pobres.

Profecia

Dom Helder assumiu decididamente a missão profética com a alegria que é ser um profeta de Deus, mas também com os sofrimentos, as dores, as apreensões que fazem parte desta missão. Durante o regime militar ele foi tido como um dos principais, senão, o principal inimigo político do governo ditatorial. Não que ele fosse. Outros assim o consideram. Dom Helder padeceu muito por querer a fraternidade, o diálogo, a compreensão, o amor, a paz, a partilha, por defender o direito há um palmo de terra para cada brasileiro e brasileira, por ser contra a tortura dos presos políticos, por defender os direitos humanos. Ele não apenas foi um profeta, mas ele provocou um “arrastão profético” na América Latina.

Pouco antes de morrer, Dom Helder nos deixou o seu último pedido. Segundo o relato do Pe. Marcelo Barros, isto aconteceu no dia 5 de agosto. Marcelo foi visitar o Dom. O Arcebispo estava calado, parecendo pouco lúcido, mas fez um sinal demonstrando que o havia reconhecido. Então teria dito as suas “últimas palavras”: “Não deixe cair a profecia”.

Dom Helder não apenas foi um profeta, mas um alimentador da profecia e nos pediu para não a deixarmos cair. E ela cai quando, por exemplo, vivemos o mundanismo espiritual, a alienação religiosa, a sedução da espiritualidade do mercado e do capitalismo neoliberal. Não vamos deixar cair a profecia. Vamos alegrar Dom Helder atiçando a profecia!

Três palavras: ServiçoPobres e Profecia. Se reparamos bem na vida de Dom Helder as três palavras se penetram. Porque quis servir mais e melhor fez a opção pelos Pobres. Porque quis fazer uma opção pelos pobres profunda, real, concreta se tornou um profeta. Porque respondeu com sinceridade à missão profética serviu mais e melhor a Deus e ao seu Povo amado.

O texto bíblico que a Igreja escolheu para o Dia de Santa Mônica (Mt 24,42-51) também se ajusta à memória de Dom Helder. No texto do Evangelho de Mateus, Jesus através de uma parábola ensina que os líderes da Igreja, das comunidades cristãs, devem não apenas cuidar dos outros, mas se vigiarem para não se afastarem da prática da Justiça do Reino. É muito fácil a gente trocar o essencial pelo superficial! É preciso vigiar sempre para em primeiro lugar buscarmos o Reino de Deus e a sua justiça. Dom Helder foi um homem de joelhos vigilantes. Fez milhares de vigílias para viver mergulhado na Santíssima Trindade e para viver a união com Cristo. A Santa Missa, celebrada com tanta unção, era “prolongada” por todo o seu dia... E deste forma, ele se tornou um “dom para nós”...

Dom Helder obrigado por ser o Dom do Serviço, o Dom dos Pobres, o Dom da Profecia... o Dom de Deus!

O QUE MOVE O MUNDO?

 

Alguém disse uma vez que as três coisas que movem o mundo são a riqueza, o poder e a sedução. Lembro-me que desafiava os seus ouvintes a dar qualquer tipo de exemplo que pudesse fugir da raiz de uma ou mais dessas três coisas. Naquele grupo em que eu estava, não conseguimos pensar em nenhuma citação.

Não se trata de reducionismos, mas as grandes questões humanas passam por esse viés e invariavelmente, nos perguntamos o tempo todo sobre o quanto se ganha, o quanto isso me empodera e ou seduz.

Na liturgia de hoje meditamos o martírio de São João Batista. Novamente nos surge o texto em que sua morte é traçada e o autor do evangelho (Mc 6, 17- 29) faz questão de não só contar o acontecido, mas de apresentar os bastidores da cena.

Por camadas ele vai descrevendo: João estava na prisão por causa de um pedido (sedutor?) de Herodíades. O Batista havia dito a essa senhora que não lhe era permitido casar com o irmão do seu marido (poder?). A senhora em questão odiava o pregador e queria vê-lo morto (riqueza?).

Herodes por sua vez é apresentado como uma pessoa que admirava o Batista considerando-o santo e justo. Mas tinha medo... Gostava de ouvi-lo mas ficava embaraçado por causa dos pensamentos de João. Nesse homem com autoridade encontram-se os três elementos: rico, poderoso e sedutor...

Aconteceu uma festa no palácio.

Herodíades pede para Salomé sua filha dançar e seduzir Herodes. Diante de tamanha formosura lhe é oferecido qualquer coisa que tenha valor: terras, dinheiro, palácios ou até metade do reino. O que ela pede? Poder. Porque ao pedir a cabeça de João, ela invade o espaço do respeito que Herodes tinha pelo Batista e comanda suas decisões. Um homem com muito poder geralmente é um homem muito frágil e sem nenhuma capacidade de escolha.

E assim é servida numa bandeja a cabeça de João.

Para além da nossa contemplação desse martírio faz-se necessário pensar um pouco como essas coisas continuam a acontecer dentro e fora dos palácios.

Com muita facilidade trocamos a ética por interesses.

Com agilidade espantosa criamos estórias para desmoralizar quem não pensa como nós.

Com certa sagacidade ordenamos a morte física algumas vezes e moral em muitos casos só para nos sentir livres dos questionamentos.

Com astúcia ignoramos a verdade e assumimos as fake news como orientação de vida.

Com despreparo absurdo deixamos o medo dominar nossa esperança e nos sentamos nos inúmeros banquetes onde é traçado o destino dos pobres.

Com risos amarelos dizemos que só fizemos porque todo mundo faz.

E por aí vamos deixando ser servida cabeças, pensamentos, ideias, sentimentos, vidas daqueles que não correspondem a nossos interesses e com isso servimos a vida decretando seu fim, inclusive do planeta, ou deixando-a à míngua sem nenhum cuidado.

São João Batista, mártir da verdade, rogai por nós.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

ATÉ QUANDO?

 Você já deve ter sido convidado para uma festa elegante e importante. OU até mesmo aquelas mais corriqueiras como um aniversário de um amigo ou mesmo um casamento de um primo, ao receber o convite, logo passa pela nossa cabeça (quando não verbalizamos) COM QUE ROUPA QUE EU VOU?

Por trás dessa pergunta quase natural existem outros fatores que se interligam na hora de se aprontar para o momento festivo: roupa, cabelo, sapato, adereço, perfume, maquiagem, carona, presente para o anfitrião, etc.

Nada de extraordinário nisso. É assim que somos. Ponto e acabou.

Mas já deve ter acontecido com você um outro complicador: chegou o dia da festa, você está todo preparado para ir e de repente, acontece alguma coisa que lhe tira o sossego ou lhe dá um banho de água fria. Muito comum chegarmos ao local do evento todo chic e elegante e as pessoas dizerem QUE CARA É ESSA?

Pois é, ir para uma festa não significa apenas ir. Significa preparar-se e mais ainda: significa criar um clima de celebração que ultrapasse os problemas e possíveis dificuldades que estejamos vivendo. Naqueles momentos juntos com quem amamos, queremos festejar ainda que existam coisas que nos desmotivem ou entristeçam.

Eu sempre penso na vida como uma festa.

Gosto muito da ideia de que somos chamados a festejar os dias com pessoas que amamos e, na medida do possível, colocar nossa melhor roupa e viver momentos de profunda alegria. Claro, existem situações que desagradam ou que entristecem. Mas a festa tem esse poder de suplantar nossas dificuldades e fazer a gente avançar na celebração à qual fomos chamados.

Nessa dinâmica muita gente fica iludido apenas e tão somente com a aparência. Vivem a vida como se ser feliz fosse apenas estar com roupas elegantes ou penteados da moda. É triste porque toda a sua motivação é justamente apenas um amontoado de aparências.

Essas pessoas ficam iludidas que a aparência define o sentido da festa. E quando, por qualquer motivo acontece alguma coisa que desmonta a fantasia, a pessoa fica sem saber o que fazer e perdido, busca respostas rápidas e eficazes apenas para voltar a manter-se enfeitado, sem nenhum aprendizado, sem nenhuma busca de verdade.

Enquanto escrevo, estou me lembrando de uma pessoa que atendi há muitos anos atrás. Com seus 40 anos, vivia uma crise de identidade porque sentia-se envelhecendo e lutava perdidamente contra os efeitos do tempo: pintava cabelos, fazia exercícios estéticos, roupas das mais caras, perfumes somente franceses...

Um belo dia teve um infarto e preciso colocar uma ponte de safena. Foi muito triste e assustador acompanhar aquele momento em que a pessoa tinha apenas as roupas e perfumes e não conseguiu construir mais nada com relação ao profundo do ser. Percebi que nem com a família conseguia manter relações profundas.

Passado o tempo pós- cirurgia, ele voltou a falar comigo e com lágrima nos olhos me disse que nada mais fazia sentido. Me assustei porque ele era um sobrevivente e deveria, no meu julgamento, estar feliz demais por estar vivo e poder continuar a festa da vida.

Mas não. Chorou um choro doído que me comoveu. E em seguida abriu a camisa e mostrou a cicatriz que ficou no peito e com uma verdade cruel me disse: COMO PODEREI SER FELIZ COM ESSA MARCA HORRÍVEL NO MEU CORPO...

Não sei se consigo ser claro com o que me passou pela cabeça, mas aquele jovem de 40 anos estava angustiado porque a partir de agora, ele tinha uma marca de luta e de sobrevivência que enfeiaria a sua festa pra sempre...

Aquilo me chocou e ao mesmo tempo me fez pensar na maneira como a gente tem essa capacidade de não conciliar as roupas bonitas com as marcas de luta e sobrevivência. Queremos a festa e não aceitamos os dissabores. Queremos viver mas não queremos aprender. Queremos festejar sem ter com o que pensar...

A estória das 10 jovens que trazem lamparinas de óleo para esperar a chegada do noivo tem essa dimensão: todas estão convidadas para a festa e com certeza, todas estão bem arrumadas, maquiadas e felizes por fazer parte daquele momento solene da vida dos amigos.

Mas 5 delas estão ali apenas pela festa, sem nenhum comprometimento, tanto é assim que não trazem óleo reserva porque não se comprometeram com o convite que receberam e queriam apenas e tão somente, curtir a vida... Diante da falta do óleo, precisam rever suas posturas e ao sair para comprar mais na cidade, ficam de fora da festa porque a porta se fecha e não são mais reconhecidas pelos noivos...

É triste pensar que estamos apenas vivendo de aparência e sem nenhum compromisso com a vida.

Passamos pelos anos curtindo e reclamando da falta de óleo em nossas lamparinas. Mas não nos comprometemos nem nos esforçamos para manter acesa a luz da espera e a alegria da expectativa. Basta-nos apenas e tão somente reclamar que o óleo acabou.

E depois, quando recebemos a graça de recomeçar e continuar a festa, nos sentimos indignados porque ficamos com marcas de sobrevivência.

Até quando?   

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

POR ONDE IR E COMO CAMINHAR

Existe um grande risco da gente assumir o padrão cultural punitivista e transformar tudo o que diz respeito a Deus e à sua Palavra, numa espécie de ameaça que ronda a vida dos que creem e ao mesmo tempo, já consolidou a punição total àqueles que ainda não creram.

Quando isso acontece, logo usamos a citação da Palavra como uma ferramenta que machuca e agride. As palavras ficam mais fortes do que são e acabam por ferir profundamente quem as ouve e mais ainda, quem se sente culpado por não dar conta do que foi proposto.

A palavra de Jesus não se insere nesse tipo de manipulação.

Quando fala e alerta, está propondo muito mais do que um possível julgamento ameaçador, um processo formativo onde as coisas são apresentadas de acordo com o que são e consequentemente, as consequências dessas ações se conectam com uma série de variáveis que se articulam para determinar o próximo passo no processo de aprendizagem.

Ficai atentos que hoje lemos no evangelho não pode ser visto como um tom ameaçador. Mas como um conselho que se insere no âmbito da grandeza da vida e portanto, se articulando com toda a riqueza que está ao nosso redor e também com outras tantas que nem sempre temos ciência ou damos conta de saber.

Ficai atentos é portanto um pensar sobre a vida e as escolhas que ora fazemos porque as consequências de cada ato se conectam com outras tantas situações que nem sempre poderemos voltar atrás.

Pensemos:

Vou sair de casa e digo que irei a tal lugar e por qualquer motivo, mudo minha rota sem me comprometer em avisar ou partilhar sobre onde mais poderia estar. É uma escolha que se deve fazer livre e sabedor de que se algo acontecer, não será punição, mas consequência pois o mundo não para só porque eu quis mudar minha rota. Tudo continua acontecendo e tudo pode gerar algum tipo de reflexo em mim e nas minhas escolhas.

Saber disso significa ter sempre diante de si a possibilidade de escolha (foi para a liberdade que Cristo nos libertou) mas também, com a ciência de que nem tudo está arrumadinho dentro da minha escolha podendo surgir consequências que fugirão do meu controle.

Então é para ter medo?

Não. É pra ter consciência e saber que as coisas são assim. Para não se colocar numa posição de desavisado ou mesmo, de coitadinho que não pensa sobre a própria vida...

É processo e é crescimento!!!

Fiquem bem.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

ALEGRIA DE DENTRO PRA FORA

 Salmo 13(14)




–1 Diz o insensato em seu próprio coração: *
'Não há Deus! Deus não existe!'
– Corromperam-se em ações abomináveis. *
Já não há quem faça o bem!

–2 O Senhor, ele se inclina lá dos céus *
sobre os filhos de Adão,
– para ver se resta um homem de bom senso *
que ainda busque a Deus.

–3 Mas todos eles igualmente se perderam, *
corrompendo-se uns aos outros;
– não existe mais nenhum que faça o bem, *
não existe um sequer.

–4 Será que não percebem os malvados *
quanto exploram o meu povo?
– Eles devoram o meu povo como pão, *
e não invocam o Senhor.



–5 Mas um dia vão tremer de tanto medo,*
porque Deus está com o justo.
–6 Podeis rir da esperança dos humildes, *
mas o Senhor é o seu refúgio!
–7 Que venha, venha logo, de Sião *
a salvação de Israel!

– Quando o Senhor reconduzir do cativeiro *
os deportados de seu povo,
– que júbilo e que festa em Jacó, *
que alegria em Israel!

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

O DENTRO E O FORA

É paradoxal...

Jesus está no evangelho de hoje lidando com essa nossa condição humana: tentar demonstrar que somos diferentes daquilo que de fato somos.

A hipocrisia não é mais uma condição apenas da pessoa religiosa (ainda que a sociedade acusa somente os religiosos). Ela se tornou arroz com feijão: todos os dias e das mais variadas formas, tentamos demonstrar publicamente uma  figura que na prática não existe e se existe, é muito diferente daquilo que expomos.

Nossa imagem para fora é estimulada pelas expectativas que os outros têm a nosso respeito e sempre na tentativa de responder ao que se espera de nós efetivamente ou por ventura, imaginamos que seria aquilo que os outros gostariam de ver em nós.

Por isso, cedemos aos padrões comportamentais e com certeza, deixamos que os valores tidos como naturais ou normais determinem também nossa essência. Ainda que em muitos casos, esses valores sejam justamente a negação daquilo que aprendemos e, em algum tempo, acreditamos.

Essas contradição do externo que nem sempre revela nosso interior é fonte de muito sofrimento e angústia e, em inúmeras situações, origem de muitas doenças psíquicas que vão se acumulando e se sedimentando em nós. Não é de se espantar que sofremos tanto de depressão, de ansiedade, de insônia e outras tantas doenças...

Jesus no evangelho de hoje questiona esse modus operandi dos  fariseus e tenta demonstrar para quem o ouve e ou lê justamente o quanto isso é pernicioso mas também, o quanto que isso está na base de tanto sofrimento e angústia.

Coamos mosquito da sopa e engolimos camelos...

Paradoxalmente parece até uma bobagem. Mas sejamos claros: não é assim que muitas vezes funcionamos?

Reclamamos de tudo ao nosso redor e dizemos não aceitar. Mas nos curvamos irremediavelmente aos apelos de consumo ou de padrões que vão sendo impostos e que se normatizam em nós e ao nosso redor.

O camelo, são esses inúmeros padrões externos que vão ocupando nosso tempo, energia, mente e coração e deixando-nos incapazes de sermos quem somos ou de viver conforme acreditamos ou podemos ou sentimos.

Não conheço o ambiente corporativo, mas o que vejo em filmes é justamente isso: para agradar a empresa e as regras das empresas, as pessoas abrem mão do descanso, do convívio, do tempo, da alegria somente para poder ganhar mais e tornarem-se aparentemente mais felizes, ainda que há de se questionar o que seria essa felicidade, porque na verdade quase sempre, todo esse sucesso vem cercado de muita solidão...

Viver o espaço do interno, cuidando daquilo que dá sentido à vida, garantindo que os valores não sejam atropelados por contra valores que usurpam nossa afetividade, nosso desejo de sermos bom e nossas capacidades e peculiaridades.

Jesus diz que os fariseus são cego.

Eu não teria dificuldade de acrescentar: cegos somos todos e cada vez mais abrimos mão da capacidade de enxergar e decidir.

Cuidar do interior implica acreditar que o movimento de dentro pra fora faz toda a diferença e quanto mais soubermos fazer isso, mais nosso exterior estará em acordo com nossas expectativas e sentidos.

É verdade que talvez isso desagrade alguns. Bem verdade que talvez tenhamos que romper padrões. Mas com certeza, estaremos bem mais perto da saúde psíquica e com capacidade de ser feliz independente do que pensam ou dizem que somos.

É um desafio. É um caminho. É evangelho!!!

Fiquem bem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Da figueira para a estrada

 


Senhor, eu sei que o lugar debaixo da figueira me dá a sensação de estar tudo certo ao meu redor. É lá que encontro a segurança de poder ficar e de justificar meus comportamentos de esperar pela confirmação das certezas...


Acontece comigo uma coisa engraçada: quero ir, mudar, mover-me mas o máximo que consigo e tento é ficar em pé esperando o mundo ao meu redor mudar para que eu creia e saia do imobilismo... 


Às vezes esse processo é tão agressivo que me agarro às seguranças da figueira só pra não ter que me deslocar e consequentemente, aprender, vivenciar, entender, encontrar. Me agarro e fico ainda mais limitado a só acreditar nas minhas próprias certezas... 


Por isso nesse dia, permita que alguém venha me dizer de convicções mais profundas e possibilita que eu, às vezes mesmo sem crer, saiba sair para encontrar com Rabi que pode me ajudar a crer e a viver... 

                                                                Assim seja.

O presidente do Brasil mente. Nota conjunta da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA)

  A   Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas   ( FAMDDI ), e o  Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas   (...