quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O presidente do Brasil mente. Nota conjunta da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA)

 A Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI), e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA), manifestam repúdio veemente às declarações feitas, nesta data (23 de setembro), pelo presidente do Brasil, sr. Jair Bolsonaro, na abertura da 75ª sessão da Assembleia Geral da Organizações das Nações Unidas (ONU).

O presidente brasileiro não apenas mentiu aos chefes de Estado e à sociedade mundial em seu discurso como expôs a forma do atual governo brasileiro tratar os povos indígenas, as populações tradicionais, a Amazônia, o Pantanal, e o meio ambiente em geral. Desprezo pela vida.

A fala presidencial constrange a maioria da sociedade brasileira perante a comunidade internacional e demonstra, mais uma vez, a disposição do governo Bolsonaro em governar para uma minoria, os que lucram com o fogo, com o desmatamento e com os ataques e assassinatos de indígenas, quilombolas, agricultores familiares, pescadores.

Responsabilizar indígenas e caboclos pelo fogo que queima a Amazônia é uma atitude de agressão e profundo desrespeito misturados à ignorância estratégica para desviar a atenção do que é necessário e urgente reparar: a omissão consciente do governo Bolsonaro diante das tragédias que ocorrem no Brasil e afetam milhares de brasileiros. O presidente do Brasil tripudia diante do sofrimento e da dor do povo do Brasil. Não respeita o cargo que ocupa.

Sr. Presidente, respeite os povos indígenas e os caboclos. Respeite o povo brasileiro!

Manaus, 22 de setembro de 2020

Assinam esta nota:

Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA)
Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMARN)
Conselho Indigenista Missionário (Cimi-Norte I)
Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (Foreeia)
Serviço de Ação, Reflexão e Educação Sociambiental na Amazônia (SARES)
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJP-AM)
Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya)
Federação Kokama TWRK
Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas
Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (MUSAS)
Mandato Popular Deputado Federal José Ricardo
Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas
União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (NIVAJA)

UM PRESIDENTE PODE MENTIR?

 Por motivos de decepção e cansaço de ser enganado escolhi não ouvir o pronunciamento do presidente Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU. De algum modo, previa que seria terrível aqueles 15 minutos de fala desconecta de sentido e totalmente separada da realidade.

Mas não pude deixar de ver os efeitos desastrosos de tal pronunciamento.

Em 15 minutos o presidente mentiu, disfarçou, desconsiderou e criou uma realidade paralela da qual somente incautos e mal intencionados são capazes de aplaudir.

Das várias e variadas mentiras uma me chamou a atenção: aquela que afirma que a causa dos incêndios nas florestas e matas são causadas por ribeirinhos e comunidades indígenas.

Somente quem não conhece a vida dessas pessoas e suas comunidades poderia afirmar tamanha crueldade, porque partem do princípio que esses agem tal e qual o grandes conglomerados financeiros que, sem medir qualquer valor que não seja quantificado pelo dinheiro, vão destruindo e desmatando tudo.

Em primeiro lugar diga-se: é impossível que essas comunidades tradicionais coloquem fogo na mata. E digo isso sem medo nenhum de errar. Não fazem porque dependem da mata, porque se relacionam com intimidade e afeto com a mata, porque precisam da mata para manterem-se vivos e sabem que essas ações de preservação não os defende apenas, mas também, servem para garantir a vida do planeta.

Segundo porque a agricultura nesses lugares não tem objetivo de lucro. Plantam para comer e normalmente, conseguem derrubar pequenas porções da mata que servem apenas e tão somente para manter os pequenos roçados.

Terceiro porque são tradicionais e como tais, não se atrevem a ir contra o que aprenderam dos pais e avôs. Vivem com todas as dificuldades que esses lugares apresentam mas sabem que ali está sua essência e portanto, não agridem porque dependem dessa energia vital para manterem-se vivos.

Mas para quem se senta numa cadeira num escritório de Brasília ou qualquer outro lugar do mundo e vê apenas cifras e ganhos tudo isso parece não fazer sentido. 

Olham sem ver.

Julgam sem entender.

E condenam para ocultar os reais responsáveis pelos crimes contra a criação.

Os grandes latifúndios precisam de cada vez mais terra para gado e soja.

Os grandes conglomerados econômicos querem por toda lei explorar o pouco de riqueza que ainda sobrou nessas terras.

Os garimpos ilegais e criminosos agem sob a égide do Estado.

Esses são os verdadeiros culpados pelas queimadas e quem não vê e não aceita isso, comete crime de omissão.

E por falar em omissão, até quando será permitido que em nome da pós- verdade um presidente possa mentir descaradamente sem ser responsabilizado pelos erros? Até quando os países que têm comércio com o Brasil aceitarão calados e em nome dos lucros que obtém essas mazelas? Até quando a classe política vai ficar silenciada para garantir algumas emendas a mais? E cadê o judiciário? 

O que não se pode mais aceitar como válido e correto são essas práticas políticas que corroem a democracia e o Estado de Direito. O que não se pode mais é ficar apenas indignado esperando que em algum momento se tenha coragem de declarar o impeachment. O que não se pode é deixar o futuro da humanidade na mão de incompetentes e mentirosos.

Se calarmos, estamos apenas ateando fogo em nós mesmos.

Fiquem bem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A BOA NOVA TEM CONSEQUÊNCIAS

 Existem certas áreas da vida cristã, que institucionalizadas, passam a ser tabus e impedem qualquer tipo de discussão mais aprofundada e que gere verdadeira transformação nas relações humanas. Uma delas é sobre o lugar das mulheres na vida da Igreja.

Para muitos a coisa está totalmente definida: a mulher pode trabalhar na Igreja, fazer algumas tarefas a ela atribuídas pelos homens mas não deve querer almejar avançar em nenhuma outra área destinada ao gênero masculino sob pena de ferir Jesus que, sendo homem, chamou apenas homens para serem discípulos.

Ainda que se aceite isso como verdade definitiva (o que eu pessoalmente tenho minhas dúvidas), não se pode querer definir o presente e o futuro baseado em definições do passado. Pode-se respeitar, resgatar, reverenciar. Mas querer ler a vida a partir dessas definições totalmente descontextualizadas, fica muito difícil.

Para outros, pensar o papel da mulher é feminismo demais e coisa de esquerdista. Para esses só posso dizer: é hora de crescer. As mulheres não podem mais esperarem que os homens lhes atribuam funções e aceitá-las pura e simplesmente sem antes se perguntar enquanto indivíduo e classe se isso responde suas aspirações. 

O certo é que a Palavra de Jesus tem nuances que não podem ser descartadas sem um aprendizado profundo. Haja visto o texto de Lucas 8, 1- 3 em que as mulheres são destaque pelo quanto fazem pelo grupo de Jesus.

Naquele momento e naquele contexto, era radical aceitar essas mulheres num grupo de pregadores. E elas estavam lá. Diz o texto que tinham inclusive participação ativa nas tarefas de evangelização e não passam desapercebidas pela sua importância e função.

Talvez em nossos dias estejamos por demais acostumados a pensar o papel das mulheres apenas como uma reprodução dessa cena: são as cozinheiras, lavadeiras, doadoras financeiras que ajudam a manter a obra da evangelização. Convenhamos que não é pouco. Mas não é pouco pra quem?

Paramos para ouvir o que essas mulheres pensam sobre as relações de gênero?

Permitimos que elas pensem projetos de organização social, econômica, política e religioso?

Aceitamos que elas podem e devem contribuir com mais do que simplesmente estar a serviço dos caprichos dos homens?

Tratamos a condição feminina como um dom que em si já é forte o suficiente para contribuir com a caminhada?

Concordamos em dividir as instâncias de poder com elas?

Lidamos com o machismo internalizado em homens e mulheres e que impede de avançar nessas discussões?

A lista de questionamentos poderia se estender. E muitos provavelmente prefeririam que as mulheres ficassem fora do grupo de Jesus. Mas elas estavam lá e elas estão aqui ainda hoje e precisam falar e demonstrar quem são, o que pensam e sentem e por onde querem ir.

Sem isso talvez o cristianismo perca a força da sua mensagem e a beleza da sua novidade. Sem lidar com tudo isso talvez sejamos apenas mantenedores do status quo sem nenhum compromisso com a verdade que liberta.

Talvez esse seja o tempo de escolha: ou nos abrimos a essa urgência ou ficaremos restritos a meia dúzia de homens querendo manter as mulheres sob o poder patriarcal e elas, já muito longe, estarão vivendo a boa nova de outros jeitos.

Fiquem bem. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O QUE BUSCO QUANDO ME OLHO NO ESPELHO?

Imagino que todos nós já tenhamos nos olhado no espelho no dia de hoje pelo menos uma vez. Confessemos: foram muitas vezes... e a cada vez que isso se repetia, o objetivo era sempre o mesmo: ter certeza de que nossa aparência estivesse no mínimo apresentável para os afazeres do dia a dia, não é?

Eu tenho essas sensação às vezes: de que ao ler o evangelho, estou sempre me olhando no espelho pra ver se meu ser cristão está ou não minimamente apresentável...

Muitas vezes, esse olhar para a Palavra é direto: eu miro no texto e me vejo em pensamentos, sentimentos e ações. Outras vezes isso é um pouco mais indireto: eu miro nas letras mas a imagem está submersa em um emaranhado de outras imagens que só poderei me ver, se for capaz de contemplar e insistir na busca desse olhar mais atento.

Isso acontece porque a Palavra é composta de camadas e elas só se descortinam, quando encontramos o sentido do que foi dito para nossa vida. Sem isso, ficamos apenas na superficialidade da tinta sem nenhum caminho para o sentido. E Paulo já nos alertou: a letra mata, o que dá vida é o Espírito.

Aquele texto em que Jesus foi convidado e aceitou tomar a refeição na casa do fariseu chamado Simão é um desses momentos em que não basta apenas olhar e se contentar com o que vemos. É preciso aprofundar o olhar e para tanto, faz-se necessário gastar tempo e ter certa ousadia em fazer algumas perguntas que são chaves para aprofundar nas camadas de sentido que o texto nos brinda.

Em primeiro lugar, olhemos para o contexto: casa de um fariseu, com amigos da mesma classe social e religiosa, jantar oferecido para um convidado que não os agradava em nada e que tinha uma série de críticas sendo feitas para a prática farisaica de modo geral e talvez até, algumas diretamente àquelas pessoas que ali estavam.

Jesus não se intimida e nem se sente compelido a não ir. Vai e ao que tudo indica, vai com o firme propósito de estar com as pessoas independentemente do que elas pensam a seu respeito. Vai porque acredita na força e no poder do encontro e, a partir daí, o que se é possível construir como ponte e não como ruptura.

Nessa mesma ocasião entra uma mulher sem ser convidada e que tinha fama de pecadora na cidade. 

Ela não só entra. Mas entra e se dirige ao convidado de honra se colocando aos seus pés e chorando sem parar, lava os pés com suas lágrimas e os enxuga com os cabelos.

As perguntas que precisam ser feitos aqui são: quem era essa mulher? porque o rótulo de pecadora se impõe e não sabemos mais nada a seu respeito? que coragem foi essa que tirou a mulher do imobilismo social e fez com que fosse a uma festa sem convite e abordasse Jesus com tamanha intimidade?

Numa leitura superficial nossos julgamentos já se impõem: era prostituta ou adúltera, coisas que dizemos sobre a moral de uma mulher quando queremos diminui-la ou faze-la se sentir imprópria. Observem a quantidade de vezes que nas redes sociais, quando se quer diminuir a importância da ação ou pensamento de uma mulher são usados termos esdrúxulos desse calão ou pior.

O evangelho diz que ela era pecadora. 

Nosso juízo moralizante diz que era prostituta.

O evangelho diz que Jesus amplia a leitura dizendo uma parábola: quem vai amar mais o seu senhor, quem teve uma dívida pequena perdoada ou quem teve uma dívida imensa?

Nós continuamos olhando para os possíveis pecados da mulher.

Percebem o quanto nossas leituras dos textos bíblicos podem estar viciadas?

Ao que tudo indica, Jesus ao contar a parábola do perdão das dívidas pequena e grande estava apontando para nossa igualdade em dever de algum modo diante de Deus. Mas nossa mesquinhez fica circunscrita apenas no pecado da mulher e hipótese desse pecado ser de ordem sexual.

E aí vem a aplicação da misericórdia: vocês que pensam ter pecados pequenos e cotidianos sem grande impacto na sua vida e na do mundo, serão perdoados. Mas como pensam pequeno e se sentem mais santos, provavelmente amarão pouco o Senhor que os perdoa. Mas quem traz as marcas profundas do pecado, de qualquer ordem ou grandeza, e se deixa olhar com profundidade por Deus, será também perdoado mas o impacto desse encontro será tão grande e transformador, que aprenderá a amar muito, porque foi profundamente amado pelo amor que não aprisiona.

Agora resta saber se queremos apenas ajeitar um tufo de cabelo que possa estar fora do lugar antes de sair de casa ou se queremos ter toda a vida refletida no espelho de tanto amor.

Dependendo da resposta, será nossa capacidade de amar...

Fiquem bem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O QUE NOS FAZ IR ADIANTE?

Você costuma jogar aqueles joguinhos de celular?

Se não, não sabe o que está perdendo pois isso é um recurso muito interessante para passar o tempo e entreter com possibilidade de raciocínio e montagem de estratégia para sempre aumentar sua pontuação.

Inclusive esse é o gancho desse tipo de jogos: estabelecer a possibilidade de sempre ir além do placar anterior e sempre fazer o seu melhor para melhorar seu desempenho.

Isso nos faz querer ir pra frente porque estimula e cria um vínculo com o jogo jogado.

Mas se tivermos que traduzir isso para nossa vida diária, o que nos faz querer ir pra frente?

O que nos impede de ficar parados, sem motivação, curtindo um marasmo do dia sem pretender avançar?

Essas perguntas são cruciais em nossa vida de fé, porque o normal e infelizmente o mais comum, é querer deixar tudo como está, sem avanços, sem desafios, sem questionamentos, sem busca de fundamentos. Quanta gente espera que a fé seja seu porto seguro e só. Na sua fantasia pretende ficar ali estacionado, sem precisar questionar nada e sem precisar querer nada além do que já lhe serviram como refeição.

O Evangelho de hoje é um convite a pensar por outros padrões. Jesus está questionando porque não nos sintamos chamados a dançar apesar da música que nos é oferecida. Quer saber porque nos incomodamos tanto com o modo como nos chega a boa nova e, se ela for dura, logo tratamos de dizer que é inviável porque endureceu demais o coração. Se ela é leve e oportuna, dizemos que não presta porque ficou relativista demais...

João Batista era eremita demais e fazia a vida perder os pequenos prazeres.

Jesus era glutão demais porque comia, bebia e se sentava com os pecadores.

É aqui que precisamos responder: o que nos faz querer ir adiante no seguimento a Jesus? O que nos vincula com a pessoa e o projeto de Jesus? O que nos faz querer dançar mediante a música de misericórdia que Jesus veio nos tocar como lembrete da aliança?

Sem isso, continuaremos a reclamar de tudo e ficar desencantado com tudo esperando em certezas que não nos levam a crer com convicção e verdade.

Quem quer dançar???

Fiquem bem.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

NOS PÉS DA CRUZ

Sempre fico pensando no significado de estar aos pés da cruz de Jesus. Me impressiona o gesto daquelas poucas pessoas que, segundo João, viram todo o flagelo que Jesus sofreu e ainda assim, permaneciam ali no Calvário contemplando o silêncio que encobriu a terra.

Nessas horas me lembro do meu retiro para ordenação realizado na Casa de Itaici quando, numa das meditações, o pregador nos pediu que ficássemos em contemplação ali na frente de um cruz e deixássemos os sentimentos irem dizendo o que se passava em nossa cabeça. Você sabe né, que é muito mais fácil deixar a cabeça dizer o que se está sentindo... mas a proposta era: deixar os sentimentos dizerem o que a cabeça pensava.

Tenho um grande respeito pelo discípulo amado de Jesus. Recebeu esse título porque provavelmente, se sentia invadido por um amor tão grande que nada poderia deixar de amar e nunca se sentia desconvidado para distribuir amor. Era amado porque sabia amar.

Gosto de pensar nele como uma pessoa com capacidade de escuta (sim, o amor exige escuta) e com ternura nos olhos (porque quem ama enxerga mais profundo).

Essas outras mulheres que João cita como sendo Maria de Cléofas e Maria Madalena são pivôs. Estão no grupo, são citadas e aparecem em várias sugestões de textos, mas não sabemos o que pensam ou sentem. Mas estavam ali e isso poderia lhes render o título de verdadeiras discípulas, porque sem vaidade dos títulos, entenderam perfeitamente o que significava seguir Jesus e não correram da cruz.

E Maria...

Maria é aquela que vai desdobrando a conversa com o anjo e percebendo que o seu sim trouxe não só a alegria de gerar, educar e conhecer Jesus, mas também o desafio de estar com ele ainda nas horas de cruz.

A Igreja muito sabiamente desde o seu nascimento soube ver em Maria essa grandeza da discípula que vai se aprofundando no conhecimento da ação de Deus e sempre lhe deu um lugar privilegiado: é Mãe...

O próprio Jesus vai dizer que ela deve receber João (paradigma dos filhos) como seu filho e como mãe, agora cuidará destes ajudando-os a manterem no caminho do Evangelho.

Contraditoriamente, Maria foi sendo cercada de tantas honras e títulos palacianos que na cultura popular, as pessoas pensam em Maria como rainha, com coroa e cetro e isso lhe tira a dimensão da maternidade cuidadora que Jesus fez questão de frisar no alto da cruz.

Sempre me pergunto também sobre essa necessidade excessiva de colocar esses personagens numa posição de poder, cercados de títulos e honrarias e que pouco ou quase nada dizem da cruz. Porque precisamos que Maria seja reconhecida como rainha se isso não teve nenhuma aplicação do evangelho?

Porque coroamos quando na verdade o estar no pé da cruz é despir-se de toda vaidade e ornamento para estar inteiro diante do mistério?

A história nos dá pistas do porque a tradição seguiu esse caminho. E na prática, nem sei se conseguiremos um dia tirar essa pecha palaciana da fé.

Ainda que não e ainda que agora não nos seja possível mudar, ainda prefiro aquele gesto pequeno e generoso de sentar-me diante do crucificado e ali ficar apenas contemplando esse acontecimento que diz muito do nosso DNA.

Fiquem bem. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

PARA SEMPRE, A PARTIR DO AGORA

Alguém ousou dizer que viver é correr riscos.

Sem pensar muito sobre o assunto, eu concordo com isso ainda que também ache que nosso instinto de preservação busque e estimule justamente o contrário disso: queremos viver nas benesses sem nenhum risco ou sofrimento.

Impossível, mas é o que se quer.

Mas me atrai a ideia quase filosófica de que a aventura da vida é um odisseia que gera conflitos e confrontos e com isso dores e medos e angústias e paralisações e dúvidas.

Mas o que nos tira então dessa pasmaceira que pode gerar em nós o adjetivo de uma má aventura?

É justamente o acomodar-se nas prisões que pensamos ser reais e verdadeiras e eternas.

Muita gente se vê como preso (ainda sob os resquícios da má interpretação platônica de que vivemos presos nesse corpo cheio de desejos e desencantos) e com isso, sente-se amaldiçoado a ser pura dor e sofrimento esperando ou postergando para o infinito o tempo e o momento em que será recompensado.

Há de se dizer que isso já foi fonte de muita opressão em nome dessa cadeia de pensamento.

Muitos aburguesados pensam dessa forma: os que hoje passam fome um dia receberão a recompensa.

Mas quem está com fome está hoje faminto e não dá para se esperar pelo dia em que haverá retorno. Fome é urgente e sem comer, a vida não presta. Assim como sem ter educação, saúde, casa, emprego e também alegria e prazer e felicidade a vida é um castigo infinito.

E não é que tem gente que prefere pensar o mundo ao contrário?

Pensa que não há aventura e sim imposição de realidades.

Pensa que não existe saída para a minha condenação.

Pensa que Deus abençoou uns agora para que eles me lembrem que o que falta pra mim, um dia será dado como prêmio.

Pensa que dor e sofrimento é o que move a vida humana.

Jesus nas bem- aventuranças parece dar uma nova dimensão disso.

Para ele a pobreza não é boa porque além de tirar a sobrevivência da pessoa, tira também a capacidade de viver com desejo e gana. Mas ser pobre pode nos ajudar a não nos prender e nem mesmo prender os outros (com mais ou com menos que a gente) numa hierarquia de prêmios.

Para ele o sentir fome pode gerar soluções criativas que ajudam a vencer a fome em busca de manter-se vivo e fazer da má aventura de se viver rastejando esperando que um dia haja prêmio, uma luta constante que construa a busca por direitos e a prerrogativa de existir aqui e agora, sabendo que o que vem depois, a Deus pertence.

As más aventuranças nos convencem mais e melhor de que basta lamentar e ficar estagnado, vivendo das migalhas que caem da mesa do rico opulento. 

As bem aventuranças gera vida e compromisso em fazer valer o dom da vida que recebemos e detectamos em nós com força porque Deus está em tudo, nele vivemos, nos movemos e somos.

Ser bem aventurado significa se juntar com pessoas que veem o valor do Reino, do chamado, da presença de Deus e encontra força e disposição para experimentar a grande aventura de se ser feliz, realizado, fortalecido pela graça e pelo chamado a uma vida que se amplia e se prolonga para o sempre.

O que nos leva a nos perguntar: existe o sempre, o eterno sem o hoje?

Fiquem bem.

O presidente do Brasil mente. Nota conjunta da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA)

  A   Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas   ( FAMDDI ), e o  Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas   (...