Existem certas áreas da vida cristã, que institucionalizadas, passam a ser tabus e impedem qualquer tipo de discussão mais aprofundada e que gere verdadeira transformação nas relações humanas. Uma delas é sobre o lugar das mulheres na vida da Igreja.
Para muitos a coisa está totalmente definida: a mulher pode trabalhar na Igreja, fazer algumas tarefas a ela atribuídas pelos homens mas não deve querer almejar avançar em nenhuma outra área destinada ao gênero masculino sob pena de ferir Jesus que, sendo homem, chamou apenas homens para serem discípulos.
Ainda que se aceite isso como verdade definitiva (o que eu pessoalmente tenho minhas dúvidas), não se pode querer definir o presente e o futuro baseado em definições do passado. Pode-se respeitar, resgatar, reverenciar. Mas querer ler a vida a partir dessas definições totalmente descontextualizadas, fica muito difícil.
Para outros, pensar o papel da mulher é feminismo demais e coisa de esquerdista. Para esses só posso dizer: é hora de crescer. As mulheres não podem mais esperarem que os homens lhes atribuam funções e aceitá-las pura e simplesmente sem antes se perguntar enquanto indivíduo e classe se isso responde suas aspirações.
O certo é que a Palavra de Jesus tem nuances que não podem ser descartadas sem um aprendizado profundo. Haja visto o texto de Lucas 8, 1- 3 em que as mulheres são destaque pelo quanto fazem pelo grupo de Jesus.
Naquele momento e naquele contexto, era radical aceitar essas mulheres num grupo de pregadores. E elas estavam lá. Diz o texto que tinham inclusive participação ativa nas tarefas de evangelização e não passam desapercebidas pela sua importância e função.
Talvez em nossos dias estejamos por demais acostumados a pensar o papel das mulheres apenas como uma reprodução dessa cena: são as cozinheiras, lavadeiras, doadoras financeiras que ajudam a manter a obra da evangelização. Convenhamos que não é pouco. Mas não é pouco pra quem?
Paramos para ouvir o que essas mulheres pensam sobre as relações de gênero?
Permitimos que elas pensem projetos de organização social, econômica, política e religioso?
Aceitamos que elas podem e devem contribuir com mais do que simplesmente estar a serviço dos caprichos dos homens?
Tratamos a condição feminina como um dom que em si já é forte o suficiente para contribuir com a caminhada?
Concordamos em dividir as instâncias de poder com elas?
Lidamos com o machismo internalizado em homens e mulheres e que impede de avançar nessas discussões?
A lista de questionamentos poderia se estender. E muitos provavelmente prefeririam que as mulheres ficassem fora do grupo de Jesus. Mas elas estavam lá e elas estão aqui ainda hoje e precisam falar e demonstrar quem são, o que pensam e sentem e por onde querem ir.
Sem isso talvez o cristianismo perca a força da sua mensagem e a beleza da sua novidade. Sem lidar com tudo isso talvez sejamos apenas mantenedores do status quo sem nenhum compromisso com a verdade que liberta.
Talvez esse seja o tempo de escolha: ou nos abrimos a essa urgência ou ficaremos restritos a meia dúzia de homens querendo manter as mulheres sob o poder patriarcal e elas, já muito longe, estarão vivendo a boa nova de outros jeitos.
Fiquem bem.
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