quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O presidente do Brasil mente. Nota conjunta da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA)

 A Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI), e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA), manifestam repúdio veemente às declarações feitas, nesta data (23 de setembro), pelo presidente do Brasil, sr. Jair Bolsonaro, na abertura da 75ª sessão da Assembleia Geral da Organizações das Nações Unidas (ONU).

O presidente brasileiro não apenas mentiu aos chefes de Estado e à sociedade mundial em seu discurso como expôs a forma do atual governo brasileiro tratar os povos indígenas, as populações tradicionais, a Amazônia, o Pantanal, e o meio ambiente em geral. Desprezo pela vida.

A fala presidencial constrange a maioria da sociedade brasileira perante a comunidade internacional e demonstra, mais uma vez, a disposição do governo Bolsonaro em governar para uma minoria, os que lucram com o fogo, com o desmatamento e com os ataques e assassinatos de indígenas, quilombolas, agricultores familiares, pescadores.

Responsabilizar indígenas e caboclos pelo fogo que queima a Amazônia é uma atitude de agressão e profundo desrespeito misturados à ignorância estratégica para desviar a atenção do que é necessário e urgente reparar: a omissão consciente do governo Bolsonaro diante das tragédias que ocorrem no Brasil e afetam milhares de brasileiros. O presidente do Brasil tripudia diante do sofrimento e da dor do povo do Brasil. Não respeita o cargo que ocupa.

Sr. Presidente, respeite os povos indígenas e os caboclos. Respeite o povo brasileiro!

Manaus, 22 de setembro de 2020

Assinam esta nota:

Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA)
Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMARN)
Conselho Indigenista Missionário (Cimi-Norte I)
Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (Foreeia)
Serviço de Ação, Reflexão e Educação Sociambiental na Amazônia (SARES)
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJP-AM)
Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya)
Federação Kokama TWRK
Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas
Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (MUSAS)
Mandato Popular Deputado Federal José Ricardo
Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas
União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (NIVAJA)

UM PRESIDENTE PODE MENTIR?

 Por motivos de decepção e cansaço de ser enganado escolhi não ouvir o pronunciamento do presidente Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU. De algum modo, previa que seria terrível aqueles 15 minutos de fala desconecta de sentido e totalmente separada da realidade.

Mas não pude deixar de ver os efeitos desastrosos de tal pronunciamento.

Em 15 minutos o presidente mentiu, disfarçou, desconsiderou e criou uma realidade paralela da qual somente incautos e mal intencionados são capazes de aplaudir.

Das várias e variadas mentiras uma me chamou a atenção: aquela que afirma que a causa dos incêndios nas florestas e matas são causadas por ribeirinhos e comunidades indígenas.

Somente quem não conhece a vida dessas pessoas e suas comunidades poderia afirmar tamanha crueldade, porque partem do princípio que esses agem tal e qual o grandes conglomerados financeiros que, sem medir qualquer valor que não seja quantificado pelo dinheiro, vão destruindo e desmatando tudo.

Em primeiro lugar diga-se: é impossível que essas comunidades tradicionais coloquem fogo na mata. E digo isso sem medo nenhum de errar. Não fazem porque dependem da mata, porque se relacionam com intimidade e afeto com a mata, porque precisam da mata para manterem-se vivos e sabem que essas ações de preservação não os defende apenas, mas também, servem para garantir a vida do planeta.

Segundo porque a agricultura nesses lugares não tem objetivo de lucro. Plantam para comer e normalmente, conseguem derrubar pequenas porções da mata que servem apenas e tão somente para manter os pequenos roçados.

Terceiro porque são tradicionais e como tais, não se atrevem a ir contra o que aprenderam dos pais e avôs. Vivem com todas as dificuldades que esses lugares apresentam mas sabem que ali está sua essência e portanto, não agridem porque dependem dessa energia vital para manterem-se vivos.

Mas para quem se senta numa cadeira num escritório de Brasília ou qualquer outro lugar do mundo e vê apenas cifras e ganhos tudo isso parece não fazer sentido. 

Olham sem ver.

Julgam sem entender.

E condenam para ocultar os reais responsáveis pelos crimes contra a criação.

Os grandes latifúndios precisam de cada vez mais terra para gado e soja.

Os grandes conglomerados econômicos querem por toda lei explorar o pouco de riqueza que ainda sobrou nessas terras.

Os garimpos ilegais e criminosos agem sob a égide do Estado.

Esses são os verdadeiros culpados pelas queimadas e quem não vê e não aceita isso, comete crime de omissão.

E por falar em omissão, até quando será permitido que em nome da pós- verdade um presidente possa mentir descaradamente sem ser responsabilizado pelos erros? Até quando os países que têm comércio com o Brasil aceitarão calados e em nome dos lucros que obtém essas mazelas? Até quando a classe política vai ficar silenciada para garantir algumas emendas a mais? E cadê o judiciário? 

O que não se pode mais aceitar como válido e correto são essas práticas políticas que corroem a democracia e o Estado de Direito. O que não se pode mais é ficar apenas indignado esperando que em algum momento se tenha coragem de declarar o impeachment. O que não se pode é deixar o futuro da humanidade na mão de incompetentes e mentirosos.

Se calarmos, estamos apenas ateando fogo em nós mesmos.

Fiquem bem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A BOA NOVA TEM CONSEQUÊNCIAS

 Existem certas áreas da vida cristã, que institucionalizadas, passam a ser tabus e impedem qualquer tipo de discussão mais aprofundada e que gere verdadeira transformação nas relações humanas. Uma delas é sobre o lugar das mulheres na vida da Igreja.

Para muitos a coisa está totalmente definida: a mulher pode trabalhar na Igreja, fazer algumas tarefas a ela atribuídas pelos homens mas não deve querer almejar avançar em nenhuma outra área destinada ao gênero masculino sob pena de ferir Jesus que, sendo homem, chamou apenas homens para serem discípulos.

Ainda que se aceite isso como verdade definitiva (o que eu pessoalmente tenho minhas dúvidas), não se pode querer definir o presente e o futuro baseado em definições do passado. Pode-se respeitar, resgatar, reverenciar. Mas querer ler a vida a partir dessas definições totalmente descontextualizadas, fica muito difícil.

Para outros, pensar o papel da mulher é feminismo demais e coisa de esquerdista. Para esses só posso dizer: é hora de crescer. As mulheres não podem mais esperarem que os homens lhes atribuam funções e aceitá-las pura e simplesmente sem antes se perguntar enquanto indivíduo e classe se isso responde suas aspirações. 

O certo é que a Palavra de Jesus tem nuances que não podem ser descartadas sem um aprendizado profundo. Haja visto o texto de Lucas 8, 1- 3 em que as mulheres são destaque pelo quanto fazem pelo grupo de Jesus.

Naquele momento e naquele contexto, era radical aceitar essas mulheres num grupo de pregadores. E elas estavam lá. Diz o texto que tinham inclusive participação ativa nas tarefas de evangelização e não passam desapercebidas pela sua importância e função.

Talvez em nossos dias estejamos por demais acostumados a pensar o papel das mulheres apenas como uma reprodução dessa cena: são as cozinheiras, lavadeiras, doadoras financeiras que ajudam a manter a obra da evangelização. Convenhamos que não é pouco. Mas não é pouco pra quem?

Paramos para ouvir o que essas mulheres pensam sobre as relações de gênero?

Permitimos que elas pensem projetos de organização social, econômica, política e religioso?

Aceitamos que elas podem e devem contribuir com mais do que simplesmente estar a serviço dos caprichos dos homens?

Tratamos a condição feminina como um dom que em si já é forte o suficiente para contribuir com a caminhada?

Concordamos em dividir as instâncias de poder com elas?

Lidamos com o machismo internalizado em homens e mulheres e que impede de avançar nessas discussões?

A lista de questionamentos poderia se estender. E muitos provavelmente prefeririam que as mulheres ficassem fora do grupo de Jesus. Mas elas estavam lá e elas estão aqui ainda hoje e precisam falar e demonstrar quem são, o que pensam e sentem e por onde querem ir.

Sem isso talvez o cristianismo perca a força da sua mensagem e a beleza da sua novidade. Sem lidar com tudo isso talvez sejamos apenas mantenedores do status quo sem nenhum compromisso com a verdade que liberta.

Talvez esse seja o tempo de escolha: ou nos abrimos a essa urgência ou ficaremos restritos a meia dúzia de homens querendo manter as mulheres sob o poder patriarcal e elas, já muito longe, estarão vivendo a boa nova de outros jeitos.

Fiquem bem. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O QUE BUSCO QUANDO ME OLHO NO ESPELHO?

Imagino que todos nós já tenhamos nos olhado no espelho no dia de hoje pelo menos uma vez. Confessemos: foram muitas vezes... e a cada vez que isso se repetia, o objetivo era sempre o mesmo: ter certeza de que nossa aparência estivesse no mínimo apresentável para os afazeres do dia a dia, não é?

Eu tenho essas sensação às vezes: de que ao ler o evangelho, estou sempre me olhando no espelho pra ver se meu ser cristão está ou não minimamente apresentável...

Muitas vezes, esse olhar para a Palavra é direto: eu miro no texto e me vejo em pensamentos, sentimentos e ações. Outras vezes isso é um pouco mais indireto: eu miro nas letras mas a imagem está submersa em um emaranhado de outras imagens que só poderei me ver, se for capaz de contemplar e insistir na busca desse olhar mais atento.

Isso acontece porque a Palavra é composta de camadas e elas só se descortinam, quando encontramos o sentido do que foi dito para nossa vida. Sem isso, ficamos apenas na superficialidade da tinta sem nenhum caminho para o sentido. E Paulo já nos alertou: a letra mata, o que dá vida é o Espírito.

Aquele texto em que Jesus foi convidado e aceitou tomar a refeição na casa do fariseu chamado Simão é um desses momentos em que não basta apenas olhar e se contentar com o que vemos. É preciso aprofundar o olhar e para tanto, faz-se necessário gastar tempo e ter certa ousadia em fazer algumas perguntas que são chaves para aprofundar nas camadas de sentido que o texto nos brinda.

Em primeiro lugar, olhemos para o contexto: casa de um fariseu, com amigos da mesma classe social e religiosa, jantar oferecido para um convidado que não os agradava em nada e que tinha uma série de críticas sendo feitas para a prática farisaica de modo geral e talvez até, algumas diretamente àquelas pessoas que ali estavam.

Jesus não se intimida e nem se sente compelido a não ir. Vai e ao que tudo indica, vai com o firme propósito de estar com as pessoas independentemente do que elas pensam a seu respeito. Vai porque acredita na força e no poder do encontro e, a partir daí, o que se é possível construir como ponte e não como ruptura.

Nessa mesma ocasião entra uma mulher sem ser convidada e que tinha fama de pecadora na cidade. 

Ela não só entra. Mas entra e se dirige ao convidado de honra se colocando aos seus pés e chorando sem parar, lava os pés com suas lágrimas e os enxuga com os cabelos.

As perguntas que precisam ser feitos aqui são: quem era essa mulher? porque o rótulo de pecadora se impõe e não sabemos mais nada a seu respeito? que coragem foi essa que tirou a mulher do imobilismo social e fez com que fosse a uma festa sem convite e abordasse Jesus com tamanha intimidade?

Numa leitura superficial nossos julgamentos já se impõem: era prostituta ou adúltera, coisas que dizemos sobre a moral de uma mulher quando queremos diminui-la ou faze-la se sentir imprópria. Observem a quantidade de vezes que nas redes sociais, quando se quer diminuir a importância da ação ou pensamento de uma mulher são usados termos esdrúxulos desse calão ou pior.

O evangelho diz que ela era pecadora. 

Nosso juízo moralizante diz que era prostituta.

O evangelho diz que Jesus amplia a leitura dizendo uma parábola: quem vai amar mais o seu senhor, quem teve uma dívida pequena perdoada ou quem teve uma dívida imensa?

Nós continuamos olhando para os possíveis pecados da mulher.

Percebem o quanto nossas leituras dos textos bíblicos podem estar viciadas?

Ao que tudo indica, Jesus ao contar a parábola do perdão das dívidas pequena e grande estava apontando para nossa igualdade em dever de algum modo diante de Deus. Mas nossa mesquinhez fica circunscrita apenas no pecado da mulher e hipótese desse pecado ser de ordem sexual.

E aí vem a aplicação da misericórdia: vocês que pensam ter pecados pequenos e cotidianos sem grande impacto na sua vida e na do mundo, serão perdoados. Mas como pensam pequeno e se sentem mais santos, provavelmente amarão pouco o Senhor que os perdoa. Mas quem traz as marcas profundas do pecado, de qualquer ordem ou grandeza, e se deixa olhar com profundidade por Deus, será também perdoado mas o impacto desse encontro será tão grande e transformador, que aprenderá a amar muito, porque foi profundamente amado pelo amor que não aprisiona.

Agora resta saber se queremos apenas ajeitar um tufo de cabelo que possa estar fora do lugar antes de sair de casa ou se queremos ter toda a vida refletida no espelho de tanto amor.

Dependendo da resposta, será nossa capacidade de amar...

Fiquem bem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O QUE NOS FAZ IR ADIANTE?

Você costuma jogar aqueles joguinhos de celular?

Se não, não sabe o que está perdendo pois isso é um recurso muito interessante para passar o tempo e entreter com possibilidade de raciocínio e montagem de estratégia para sempre aumentar sua pontuação.

Inclusive esse é o gancho desse tipo de jogos: estabelecer a possibilidade de sempre ir além do placar anterior e sempre fazer o seu melhor para melhorar seu desempenho.

Isso nos faz querer ir pra frente porque estimula e cria um vínculo com o jogo jogado.

Mas se tivermos que traduzir isso para nossa vida diária, o que nos faz querer ir pra frente?

O que nos impede de ficar parados, sem motivação, curtindo um marasmo do dia sem pretender avançar?

Essas perguntas são cruciais em nossa vida de fé, porque o normal e infelizmente o mais comum, é querer deixar tudo como está, sem avanços, sem desafios, sem questionamentos, sem busca de fundamentos. Quanta gente espera que a fé seja seu porto seguro e só. Na sua fantasia pretende ficar ali estacionado, sem precisar questionar nada e sem precisar querer nada além do que já lhe serviram como refeição.

O Evangelho de hoje é um convite a pensar por outros padrões. Jesus está questionando porque não nos sintamos chamados a dançar apesar da música que nos é oferecida. Quer saber porque nos incomodamos tanto com o modo como nos chega a boa nova e, se ela for dura, logo tratamos de dizer que é inviável porque endureceu demais o coração. Se ela é leve e oportuna, dizemos que não presta porque ficou relativista demais...

João Batista era eremita demais e fazia a vida perder os pequenos prazeres.

Jesus era glutão demais porque comia, bebia e se sentava com os pecadores.

É aqui que precisamos responder: o que nos faz querer ir adiante no seguimento a Jesus? O que nos vincula com a pessoa e o projeto de Jesus? O que nos faz querer dançar mediante a música de misericórdia que Jesus veio nos tocar como lembrete da aliança?

Sem isso, continuaremos a reclamar de tudo e ficar desencantado com tudo esperando em certezas que não nos levam a crer com convicção e verdade.

Quem quer dançar???

Fiquem bem.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

NOS PÉS DA CRUZ

Sempre fico pensando no significado de estar aos pés da cruz de Jesus. Me impressiona o gesto daquelas poucas pessoas que, segundo João, viram todo o flagelo que Jesus sofreu e ainda assim, permaneciam ali no Calvário contemplando o silêncio que encobriu a terra.

Nessas horas me lembro do meu retiro para ordenação realizado na Casa de Itaici quando, numa das meditações, o pregador nos pediu que ficássemos em contemplação ali na frente de um cruz e deixássemos os sentimentos irem dizendo o que se passava em nossa cabeça. Você sabe né, que é muito mais fácil deixar a cabeça dizer o que se está sentindo... mas a proposta era: deixar os sentimentos dizerem o que a cabeça pensava.

Tenho um grande respeito pelo discípulo amado de Jesus. Recebeu esse título porque provavelmente, se sentia invadido por um amor tão grande que nada poderia deixar de amar e nunca se sentia desconvidado para distribuir amor. Era amado porque sabia amar.

Gosto de pensar nele como uma pessoa com capacidade de escuta (sim, o amor exige escuta) e com ternura nos olhos (porque quem ama enxerga mais profundo).

Essas outras mulheres que João cita como sendo Maria de Cléofas e Maria Madalena são pivôs. Estão no grupo, são citadas e aparecem em várias sugestões de textos, mas não sabemos o que pensam ou sentem. Mas estavam ali e isso poderia lhes render o título de verdadeiras discípulas, porque sem vaidade dos títulos, entenderam perfeitamente o que significava seguir Jesus e não correram da cruz.

E Maria...

Maria é aquela que vai desdobrando a conversa com o anjo e percebendo que o seu sim trouxe não só a alegria de gerar, educar e conhecer Jesus, mas também o desafio de estar com ele ainda nas horas de cruz.

A Igreja muito sabiamente desde o seu nascimento soube ver em Maria essa grandeza da discípula que vai se aprofundando no conhecimento da ação de Deus e sempre lhe deu um lugar privilegiado: é Mãe...

O próprio Jesus vai dizer que ela deve receber João (paradigma dos filhos) como seu filho e como mãe, agora cuidará destes ajudando-os a manterem no caminho do Evangelho.

Contraditoriamente, Maria foi sendo cercada de tantas honras e títulos palacianos que na cultura popular, as pessoas pensam em Maria como rainha, com coroa e cetro e isso lhe tira a dimensão da maternidade cuidadora que Jesus fez questão de frisar no alto da cruz.

Sempre me pergunto também sobre essa necessidade excessiva de colocar esses personagens numa posição de poder, cercados de títulos e honrarias e que pouco ou quase nada dizem da cruz. Porque precisamos que Maria seja reconhecida como rainha se isso não teve nenhuma aplicação do evangelho?

Porque coroamos quando na verdade o estar no pé da cruz é despir-se de toda vaidade e ornamento para estar inteiro diante do mistério?

A história nos dá pistas do porque a tradição seguiu esse caminho. E na prática, nem sei se conseguiremos um dia tirar essa pecha palaciana da fé.

Ainda que não e ainda que agora não nos seja possível mudar, ainda prefiro aquele gesto pequeno e generoso de sentar-me diante do crucificado e ali ficar apenas contemplando esse acontecimento que diz muito do nosso DNA.

Fiquem bem. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

PARA SEMPRE, A PARTIR DO AGORA

Alguém ousou dizer que viver é correr riscos.

Sem pensar muito sobre o assunto, eu concordo com isso ainda que também ache que nosso instinto de preservação busque e estimule justamente o contrário disso: queremos viver nas benesses sem nenhum risco ou sofrimento.

Impossível, mas é o que se quer.

Mas me atrai a ideia quase filosófica de que a aventura da vida é um odisseia que gera conflitos e confrontos e com isso dores e medos e angústias e paralisações e dúvidas.

Mas o que nos tira então dessa pasmaceira que pode gerar em nós o adjetivo de uma má aventura?

É justamente o acomodar-se nas prisões que pensamos ser reais e verdadeiras e eternas.

Muita gente se vê como preso (ainda sob os resquícios da má interpretação platônica de que vivemos presos nesse corpo cheio de desejos e desencantos) e com isso, sente-se amaldiçoado a ser pura dor e sofrimento esperando ou postergando para o infinito o tempo e o momento em que será recompensado.

Há de se dizer que isso já foi fonte de muita opressão em nome dessa cadeia de pensamento.

Muitos aburguesados pensam dessa forma: os que hoje passam fome um dia receberão a recompensa.

Mas quem está com fome está hoje faminto e não dá para se esperar pelo dia em que haverá retorno. Fome é urgente e sem comer, a vida não presta. Assim como sem ter educação, saúde, casa, emprego e também alegria e prazer e felicidade a vida é um castigo infinito.

E não é que tem gente que prefere pensar o mundo ao contrário?

Pensa que não há aventura e sim imposição de realidades.

Pensa que não existe saída para a minha condenação.

Pensa que Deus abençoou uns agora para que eles me lembrem que o que falta pra mim, um dia será dado como prêmio.

Pensa que dor e sofrimento é o que move a vida humana.

Jesus nas bem- aventuranças parece dar uma nova dimensão disso.

Para ele a pobreza não é boa porque além de tirar a sobrevivência da pessoa, tira também a capacidade de viver com desejo e gana. Mas ser pobre pode nos ajudar a não nos prender e nem mesmo prender os outros (com mais ou com menos que a gente) numa hierarquia de prêmios.

Para ele o sentir fome pode gerar soluções criativas que ajudam a vencer a fome em busca de manter-se vivo e fazer da má aventura de se viver rastejando esperando que um dia haja prêmio, uma luta constante que construa a busca por direitos e a prerrogativa de existir aqui e agora, sabendo que o que vem depois, a Deus pertence.

As más aventuranças nos convencem mais e melhor de que basta lamentar e ficar estagnado, vivendo das migalhas que caem da mesa do rico opulento. 

As bem aventuranças gera vida e compromisso em fazer valer o dom da vida que recebemos e detectamos em nós com força porque Deus está em tudo, nele vivemos, nos movemos e somos.

Ser bem aventurado significa se juntar com pessoas que veem o valor do Reino, do chamado, da presença de Deus e encontra força e disposição para experimentar a grande aventura de se ser feliz, realizado, fortalecido pela graça e pelo chamado a uma vida que se amplia e se prolonga para o sempre.

O que nos leva a nos perguntar: existe o sempre, o eterno sem o hoje?

Fiquem bem.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

NÃO TENHAIS MEDO

A comunidade cristã por definição tem a missão de ser portadora da boa nova dada em Jesus Cristo.

Essa vocação é parte integrante do nosso pertencer a Cristo e sem ela, não se pode falar de uma comunidade realmente viva. Para que serviria uma comunidade que simplesmente legitima e mantém as coisas como ela são sem ser capaz de fazer novas as coisas?

Infelizmente, pelo processo de institucionalização da fé, acabamos nos detendo mais na manutenção da fé do que na capacidade criadora desse sentimento fundante da experiência: crer passou a ser um repetir fórmulas e portanto, uma perpetuação do modo como as coisas foram sem gerar nenhum sinal de vida.

A força do evangelho nos dá uma nova dimensão dessa dimensão: o que significa pertencer a Cristo e o que isso altera nas relações de poder, de conhecimento, de sentimento, de afetos?

Hoje celebramos a Natividade de Nossa Senhora: olhar para o fato corriqueiro do nascimento de uma menina e ver nisso, sinais de uma profunda transformação da experiência humana do indivíduo e da própria comunidade.

Em primeiro lugar, lemos a genealogia. Essa descrição dos geradores da família normalmente baseada na figura masculina e no seu imaginário poder de fecundação, é valorizado pelo autor dando a dimensão histórica da pertença de Jesus a essa tradição extensa. No entanto, nota-se que Mateus coloca Maria (uma mulher) nessa sequência dando-lhe o mesmo status que se dava aos homens e dizendo em outras palavras, que a mulher também gera e sem ela, não há possibilidade da vida ser mantida.

Esse elemento nos serve para discutir o lugar das mulheres na vida da comunidade. Porque Maria, desde muito cedo, venerada pelas comunidades, serve de contraponto a uma visão patriarcal onde as mulheres seriam apenas e tão somente receptáculo da semente de vida, sem nenhuma contribuição na função geracional.

Mas também dá destaque ao papel social da mulher: não é mais apenas restrita ao ambiente doméstico mas participa das ações que geram benefícios para seu povo, dando destaque por gerar o Messias, aguardado desde sempre e agora, contando com a participação ativa de uma mulher.

Depois, continua a rediscutir o papel do homem.

José é apresentado como um sujeito amedrontado, um pouco receoso e sem grandes convicções.

Fato novo, pois o normal era sempre dar destaque com cores e feitos atribuídos aos homens sem nunca macular sua masculinidade com sentimentos menores. Ter medo seria e ainda é uma expressão de fraqueza. Quantos ainda hoje pensam que sentir medo pode representar a perda da sua hombridade.

A comunidade de Mateus parece bem sintonizada com a vocação que descrevi acima: quer aprender a olhar a vida com olhos novos e  estão dispostos a repensar as relações de gênero não a partir de uma inversão de poderes, mas na busca de valorizar o que cada um pode e de fato contribui para a vida e, dentro do ambiente religioso, para a salvação.

Mateus narra o encontro de Maria com o anjo de uma forma diferenciada da de Lucas. E faz isso, porque quer relatar a José a importância de se reconhecer que Deus escolheu Maria e deu a ela o protagonismo da geração do Salvador  porque isso complementa e inaugura a importância de todos dentro do processo sem deixar ninguém de fora e sem excluir a importância do papel de cada um.

Maria gera a vida tanto quanto os citados na história da salvação. José participa dessa geração como aquele que acolhe, acompanha, apoia e se solidariza com esse feito.

Não há porque sentir medo, nem culpa, nem raiva, nem inveja, nem ciúmes...

A ação de Deus engloba e permite que cada um e cada uma sejam a partir de um novo prisma: Deus está conosco...

Fiquem bem.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

VAIDADE DAS VAIDADES

 Sem condições de adquirir novos livros, seja por questões financeiras, seja pela greve dos correios, seja pela dificuldade em escolher pois não tenho tido acesso ao catálogo de novos lançamentos, fui obrigado a revisitar alguns clássicos.

Obrigado é o jeito de dizer, pois é sempre bom reabrir um livro já lido e dele extrair novas chaves com potencial de abertura de novas portas e janelas do pensamento.

Estou terminando de reler o DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA de Étienne de La Boétie, um texto do século XVI e que li durante a graduação lá pelos anos 1987 e agora, fui revisitar pois encontrei uma versão em PDF que me motivou uma revisitada.

O autor motivado pela derrota do povo francês diante dos fiscais do rei e exército nacional onde, dada a derrota, se estabelece um novo e imperioso imposto sobre sal, a saber, grande riqueza dessa época.

A partir desse sentimento de se esfolado pelo palácio, o filósofo vai questionar as atitudes de quem, mesmo sabendo-se servo, aceita e se dispõe a compactuar com a casa do rei. Daí a contradição já sentida no título do opúsculo.

Perguntas do tipo: como posso abrir mão da liberdade de escolha e definição da minha vida me tornando servo de um sistema que opera contra mim? Como se estabelece o poder de um só sobre cidades inteiras? Como um grupo aceita fazer parte de um projeto que descaradamente agride a maioria do povo? Essas e outras serão apresentadas como elemento questionador do ambiente social daquele período do fim da idade média e início da idade moderna.

Grosso modo, o autor vai identificar nesses servos voluntários, um desejo secreto de, servindo sem reclamar ou questionar, criar uma brecha para que também eles possam em algum momento e de alguma forma específica, poderem contar com um grupo de servos voluntários a seu dispor.

Dito de outra forma, o que querem e pensar estar fazendo é justamente abrindo espaço para que um dia tenham eles também em algum nível o poder que hoje ajudam a manter e a ser exercido contra a maioria. E aqui, mais do que julgá-los como sendo responsáveis diretos pelos erros do governo que legitimam, discute-se a responsabilidade moral uma vez que abriram mão da liberdade para apoiar aquele que ora tira a liberdade de todos.

Mas de tudo o que tenho lido, me chama a atenção do elemento que o autor chama de "magia do tirano". Segundo ele, o tirano consegue apreender os afetos das pessoas e grupos a partir de representações do medo, da sabedoria ou da incapacidade de se entender onde ele pretende chegar.

Isso vem ao encontro de alguns fatos que tenho visto na mídia.

Gostaria de me ater apenas ao documentário THE VOW que a HBO tem apresentado por partes aos domingos e que trata do controle exercido por um magnata chamado Keith Raniere que fundou uma espécie de culto de auto ajuda nos EUA e, depois de se expandir através do gerenciamento de inúmeras empresas, acabou sendo desmascarado pela denúncia de ex- membros que foram denunciando e documentando suas denúncias. Mas devo dizer: tanto as chaves de La Boetié quanto a análise sobre esse caso em específico, não são únicas e acabam servindo para olhar sobre outras realidades que merecem cuidado e atenção.

Baseado numa crença bastante duvidosa da capacidade extraordinária do seu criador em ser superior e maravilhosamente mais sábio que os demais, esse grupo experimenta uma espécie de doutrina de auto conhecimento que levaria a pessoa além de saber seus pontos fortes e fracos, a vencer os obstáculos e ainda, serem capazes de se tornarem extraordinariamente bem sucedidos em tudo o que fizerem.

Não precisa ser muito perspicaz para saber que essa premissa atrai principalmente pessoas que estão com suas carreiras estagnadas e que atribuem essa condição, ao fato de terem barreiras internas que precisam ser vencidas para depois vencer as externas, próprias do sistema econômico e ou social em que vivem.

Os depoimentos são assustadores e até certo ponto, vexatórios. Porque obviamente são pessoas brancas, bem formadas, com certo grau de conhecimento e que descrevem com certa ingenuidade o modo como foram sendo absorvidos como massa barata de trabalho onde ganhavam muito pouco e perdiam, a liberdade como seu bem mais precioso.

Como disse acima, a apresentação do documentário está sendo por capítulos e ainda não sei onde vai chegar. Pelo pouco que li na imprensa, parece que a situação chega a ser um caso de polícia porque além de tudo, vai se constatar tráfico humano e escravidão sexual. Mas ainda assim, a dor da narração está no fato de os personagens se sentirem enganados mediante um discurso para servidão voluntária.

Como pode uma produtora de cinema aceitar ser uma escrava (sim é esse o termo usado no descritivo do grupo) de uma mestra que, para poder dormir, tem  que ter autorização da mesma? Ou então, dentro de um rito de iniciação permitir que seja marcada com um cauterizador que vai deixar para sempre em seu corpo, uma sigla que remete ao poder da sua mestra sobre ela e o vínculo de um voto de obediência cega para o tal fundador?

Quando a gente ouve a narrativa dessas pessoas vai dando uma aflição porque notadamente se percebe que as coisas não faziam sentido (ao menos fora daquele ambiente), mas todos sem exceção vão cedendo a esses caprichos perdendo assim a sua capacidade de escolha e de tomada de decisão.

Aí invoco La Boetié novamente e parece que esse processo é tão presente no nosso meio (guardando as devidas proporções) que às vezes não nos damos conta de que, para além da maldade daquele que nos seduz, existe a responsabilidade moral que temos em deixar que isso se prolongue e se efetive em nós.

E talvez o mais assustador em assistir ao documentário seja isso: quantas vezes e de quantos modos estamos cedendo nossa liberdade para que o tirano possa mandar e dominar nossas vontades usando-as apenas e tão somente para manutenção do seu poder.

Esse mecanismo de servidão voluntária parece estar na moda. De muitos modos parece que estamos abrindo mão da nossa capacidade de escolha aceitando ser geridos por um déspota que determina qual nossa condição de escravos. Por trás, vão a vontade de servir e ilusão de que um dia, também nós seremos capazes de ter nossa própria corte de serviçais.

Vanitas vanitatum et ominia vanitas.

Fiquem bem.


EIS A LIÇÃO

 Acabei de ler o livro LUGAR DE FALA de Djamila Ribeiro. Uma boa introdução à discussão sobre o lugar da existência como ponto de partida para o entendimento e conhecimento da vida e dos seus desafios.

Hoje, enquanto meditava o texto de Lucas 6, me passava pela cabeça a ideia de que Jesus fazia justamente isso ao possibilitar que as pessoas fossem para o centro, para o meio da roda social. Não devia ser à toa que sempre fazia esse pedido.

Mais do que tentar adivinhar ou inferir que já se soubesse o que a pessoa queria (mais de uma vez ele pergunta o que você quer que eu faça pra você), dar destaque a essas pessoas, significa poder dar palavra e lugar para que sejam.

Colocar um doente e portanto, uma pessoa amaldiçoada no centro de uma roda social é propor a inversão do olhar para novas prioridades que fujam aos padrões sociais e teológicos que estamos acostumados a ver e a julgar o mundo.

Não é à toa que os fariseus se sentem raivosos a verem Jesus curando no sábado. Será que é porque é dia sagrado ou porque Jesus os faz olhar para onde ou para quem normalmente não costumam olhar? 

Você, assim como eu, já tivemos esses acessos de raiva.

Quando estamos numa mesa de uma lanchonete ou restaurante e alguém nos interrompe para pedir uns trocados ou se pode ou não pegar os restos da pizza que estão sobre a mesa, não dá uma raiva grande?

Ou então, quando aflitos com as compras que devemos fazer por ocasião do natal e nos deparamos com uma mulher com ferida nas pernas e criança raquítica nos braços, não cresce em nós uma raiva disfarçada de indignação?

Porque será?

Porque somos forçados a olhar para onde não gostaríamos de olhar e se possível, nem gostaríamos que existissem pessoas assim atrapalhando o meu bem estar.

Pois é aí que se encontra a força do evangelho e o modo como Deus se comunica conosco: não gostaríamos de ver mas Deus quer mostrar que ainda há muito a se fazer e a se comprometer com vidas que existencialmente, estão correndo o risco de não mais existir. E toda vida é sagrada. 

Tudo o que move é sagrado, já cantavam os mineiros do Clube da Esquina.

Não há seletividade da parte de Deus em achar que uma vida é mais sagrada que outra ou que uma existência tem mais méritos que outra. Tudo é sagrado.

Curar no sábado é apenas uma boa desculpa para sentirmos raiva e começar a tramar como eliminar Jesus e sua maneira de pensar e de nos ajudar a pensar. Porque não duvidem: ainda continuamos dando um jeito de tramar contra o Reino, se não de mandar matar Jesus (algo discutível), mas tentando abrandar sua maneira de pensar e agir.

Aprender a olhar para onde nem sempre estamos acostumados ou confortáveis... Eis a lição.

Fiquem bem.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

VINHO NOVO PRECISA DE NOVOS TONÉIS

 Muito significativo que na cultura brasileira por ocasião das festas juninas antigamente se "enfeiavam" as roupas dos dançantes da quadrilha para que se parecessem (será que nos parecíamos?) com os caipiras que viviam e trabalhavam na roça.

Hoje, tudo tão mais sofisticado, quase nem existe mais e até mesmo onde ainda se dança essa tradição, as roupas são feitas para negar aquela vida simples dos roceiros para atribuir-lhes glamour que quase nunca tiveram.

Mas a ideia era simples: roupa velha e usada com retalhos tirados de panos mais exagerados possível para marcar além da deficiência econômica e simplicidade de vida que experimentávamos na roça, a falta de uma estética padrão da cidade.

Hoje não me saiu da cabeça as inúmeras vezes que participei desse tipo de dança. E ao pensar no que o texto do evangelho quer dizer, não consigo diminuir a importância dessas vivências e dessa tradição.

Jesus fala do remendo novo em roupa velha dizendo que isso seria exagero desnecessário porque, estragaria-se a roupa nova para retirar apenas um pedaço de pano e enfeiaria a roupa velha, causando inclusive um certo desconforto porque o remendo repuxaria o pano já cansado.

Fala também do vinho novo, que é sempre muito ácido e, quando colocado no barril deve ser escolhido o novo para que a acidez não destrua o barril e com isso se perca o vinho e os tonéis.

Do que fala Jesus?

Da tentação sempre presente de ouvirmos sua palavra que é sempre algo novo e transformador e querer, por interesse, medo ou comodismo, encaixa-la em estruturas velhas e arcaicas que já não dão conta de encarnar a palavra dita.

Essa tentação, presente ainda em nós, é perigosa porque destitui a força da palavra viva e a acomoda em estruturas já cansadas e desatualizadas para transformar o dizer em fazer.

Nem sempre nos damos conta disso, mas somos expert em fazer isso.

Enchemos a boca para falar: Jesus é amor. Mas dizemos que o amor dele não pode ser dado para quem tem vida desse ou daquele jeito.

Ficamos animados para dizer: Jesus veio chamar a todos. Mas logo tratamos de estabelecer uma lista de possíveis convidados para entrar na festa.

Adoramos dizer que a salvação é para todos. Mas em seguida estabelecemos um padrão de pensamento, comportamento e sentimento que quase ninguém se encaixa e até mesmo aqueles que se sentem encaixados, logo descobrimos que deixaram-se apossar pela hipocrisia.

Esse é pecador. Aquela é perdida. O outro é infiel. A outra já não se salva. E continuamos dizendo que Deus é amor.

São panos recortados de boas ideias e pregados em roupas velhas.

São vinhos acabados de serem fermentados e postos em tonéis velhos prontos para estourarem.

E vejam quantas vezes esses tonéis têm estourado na forma de hipocrisia, escândalos e descumprimentos.

E ainda continuamos tentando enfeiar o nome de Jesus dizendo que é ele quem pede para que façamos assim desse jeito.

Na cruz, provavelmente nunca pensou em morrer por alguns e muito menos, nunca achou que seu sacrifício salvaria alguns apenas. Mas essa ideia mal formada foi ficando dentro das instituições religiosas, dos grupos, das pessoas e é isso que oferecemos ao mundo em pleno século 21.

Até quando?

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

EM BUSCA DE ESPERANÇA

 Hoje, enquanto preparava a aula de geografia dos sétimos anos, se abateu sobre mim uma tristeza profunda e difícil de curar: ao abrir um email de notícias, me deparei com a foto do pequeno Aylan que foi encontrado morto com o rosto na areia molhada após se afogar no Mar Egeu depois de uma tentativa frustrada de, junto com a família, fugir dos conflitos étnicos e religiosos que pesa sobre a Síria.

Imediatamente o tema que eu deveria abordar hoje e nas próximas aulas ganha novo contorno: taxa de natalidade e taxa de mortalidade.

Segundo a tia do menino, o objetivo da família ao se arriscar em pleno mar bravio num bote inflável estava na "esperança de encontrar um lugar para se ter esperança".

Era pra ser naquela família uma luta pela vida. Afinal um pai e uma mãe não entram num bote com seus 3 filhos para fazer uma aventura marítima. Queriam dar um novo nascimento para aqueles pequenos e achavam que, chegando à Grécia  (porta de entrada para a União Européia) poderiam se enquadrar às estatísticas de nascimento, fugindo assim do sopro gelado da morte.

Mas tudo deu errado...

E o pior é que não são os únicos a morrerem nessas travessias trágicas fugindo das guerras, perseguições religiosas e étnicas, ou então tentando avançar para um canto do mundo onde possam encontrar esperança.

Diz o livro didático no qual me baseio para organizar os conteúdos, que taxa de natalidade corresponde ao número de crianças nascidas vivas a cada 1.000 habitantes. E não pude dar alguns saltos para tentar equacionar essas informações com aquela foto trágica e estarrecedora do pequeno Aylan morto na areia da praia.

O que é nascer vivo para milhões de crianças que nascem em meio a conflitos bélicos?

O que significa estar na estatística dos nascimentos por habitantes para crianças que nascem sem ter casa, comida, roupa, escola ou mesmo a garantia de que serão cuidadas por suas família?

E quando são "obrigadas" a fugir, entram em qual taxa: a de natalidade ou mortalidade?

Supondo que cheguem a outro país, vivendo em campos de refugiados, estão vivos ou mortos? Como são contados?

E toda a balbúrdia que a sociedade midiatizada fez com a foto daquele pequeno corpo afundado na areia branca, o que se fez para que não houvessem mais aylans? 

O horror que tomou conta do mundo inteiro ao ver aquela triste cena, teve o efeito simples e rápido como uma onda: a indignação durou até a notícia seguinte e, hoje depois de cinco anos, quase nenhum de nós ainda se lembra que aquilo não era ficção e milhares (senão milhões) também entraram para as taxas de mortalidade e não puderam ter o último registro da vida como aconteceu com Aylan.

A tia da criança que é Síria e mora há muitos anos no Canadá deu uma contundente entrevista onde, com a mesma crueza da foto que víamos há 5 anos, nos disse que SUA VOZ JÁ NÃO PODE SALVAR SUA FAMÍLIA. ENTÃO, QUE ELA FALARÁ NA ESPERANÇA DE SALVAR A FAMÍLIA DOS OUTROS...

Que não nos encontre surdos.

 

EM ATENÇÃO

Nada mais perigoso do que a sensação de frustração.

E o perigo vem de várias direções: cansaço, decepção, desencanto, falta de confiança nos outros e em si, medo, culpa, descaso com os compromissos, etc sem fim.

As grandes empresas estão sempre atentas a isso porque essa desmotivação pode ser gerador de grandes falhas no atendimento ao cliente. Nessa perspectiva, não faltam ferramentas que possam ajudar e reorientar os trabalhos a partir de novas metodologias e conteúdos.

Mas quando se trata de questões pessoais a coisa fica mais complicada.

Primeiro, porque a vida real não requer método. A vida tem sua dinâmica e se impõe sobre nossas preparações e intenções.

Mas também porque a frustração poder vir de onde a gente menos imagina e gostaria que viesse. Por exemplo, meu casamento não está indo bem. Mas amo minha família. Sentir-se frustrado com isso pode gerar culpabilizações infinitas e decepções profundas pois não se tem como reorganizar-se sozinho.

Para nós que cremos, sempre olhamos para Jesus. Além de toda a carga teológica que depositamos nele e sabemos que ele fez e faz, é também um líder cuidadoso e generoso no cuidado das pessoas que estão nessa situação.

O evangelho de hoje é um bom exemplo disso. Lucas contextualiza o retorno da pescaria (tarefa diária que era não só necessária mas fundamental para manter as famílias alimentadas e com algum dinheiro) entremeada pelo sentimento de cansaço e frustração: trabalhamos a noite toda e não pescamos nada, diz Pedro.

Jesus parece entender esse processo e sabe muito bem identificar o perigo que ronda aquele grupo de amigos. Na tentativa de abrir portas, solicita que se lance a rede em outra direção.

Simão e o grupo resiste, porque a decepção não deve ser aumentada porque talvez já estivesse no limite.

Mas em ATENÇÃO À SUA PALAVRA acabam fazendo o que lhes foi pedido.

A surpresa é grande porque tamanha quantidade de peixes aparecem nas redes. E o medo toma conta deles.

Pensando na cena que acabamos de ler e meditar, eu pergunto: onde está a pescaria milagrosa? Nos peixes pescados ou no retorno da confiança e presteza com o próprio trabalho?

Para muitos, o que conta é o resultado funcionalista: tamanha quantidade de peixes.

Para mim, é admirável como Jesus está sempre abrindo portas na nossa vida para não nos deixar envoltos no sentimento de fracasso e decepção. Age possibilitando a entender a vida como um recomeço constante onde nada pode por o ponto final senão nossa falta de perspectiva.

Tudo tem recomeço e tudo se renova à medida em que nos entendemos e aceitamos a Palavra que diz tente de outra forma, com outros caminhos e com nova gana.

E preparem-se, poderíamos dizer, porque as vezes as portas que são abertas nos apontam caminhos que antes temíamos poder seguir. E onde o medo impera o Espírito não consegue renovar...

Nessa luta pela vida nada mais modesto e coerente do que sempre agir segundo a Palavra de vida que Deus nos dirige sempre...

Fiquem bem.

DEUS PARA ALÉM DO TRIBUNAL DAS NOSSAS IDEIAS

  Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.


Nem sempre nossa experiência de fé tem a ver com o Deus que Jesus de Nazaré revelou. A civilização ocidental possui forte tendência para o rigorismo e a observância de leis. O modo pelo qual a sociedade educa as pessoas, acaba gerando uma visão maniqueísta da realidade, separando bons e maus. A linguagem torna-se condicionada entre “correto” e “incorreto”, criando-se olhares de suspeitas, o que compromete a convivência fraterna. Consequentemente, é difícil a liberdade interior desabrochar perante as leis. Uma consciência bem formada, contudo, consegue integrar vida e ética como imperativo categórico. Por isso, nossa convivência deveria ser marcada pelo respeito e cuidado com todos, sem necessitar de um código legislativo de repressão. 

Todo o acervo de leis e repressão de nossos atos, origina a ideia de um deus justiceiro, que pune e castiga. A própria educação que algumas crianças recebem constata isso. Se a criança, mesmo brincando, faz algo que não agrada aos pais, imediatamente ela ouve: “não pode fazer isso, pois Deus castiga. Papai do céu está vendo tudo. Ele fica triste com você.” Às vezes não se mede o grau dessas afirmações, mas parece que geram indivíduos medrosos, distanciando-os de uma relação filial com Deus. Se a educação não consegue ser dialógica e convencer pelo testemunho e pela ternura, então sempre teremos dentro de nós grandes opressores da nossa consciência

Jesus teve uma postura diferente diante da lei. Ele não foi contra, mas demonstrou seus limites e, ao confrontá-la com o valor imensurável da vida, deixou claro que existimos para a liberdade e não para as submissões humanas. Nenhum homem deve escravizar outro semelhante com a criação de códigos legais. Nos evangelhos, a ideia de Deus gira em torno do amor, e não da justiça legalista (dar a cada um aquilo que lhe convém). A ideia do Deus amor ultrapassa o rigorismo da lei, por isso o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Já a ideia que fomenta um deus justiceiro, não coloca o ser humano como alguém que necessita da nossa compaixão. Neste sentido, Jesus testemunha que a mesma intensidade do amor a Deus é a mesma do amor ao próximo

As religiões pagãs adoravam apenas a seus deuses, muitas vezes cometiam crimes horríveis contra o próximo. O que devemos evitar é uma relação exclusivamente vertical com Deus. O cristianismo sempre considera o próximo, ama-o da mesma forma que ama a Deus. Exatamente por isso, precisamos evitar uma relação meramente intimista. A experiência do Deus Amor permite Deus ser próximo e companheiro dos homens, entra na sua história e a redime. Quando esquecemos do Deus Amor, caímos na barbárie. Seria o mesmo que uma ética sem metafísica. 

Não esqueçamos do Deus Amor, pois é isso que impede ao tribunal de nossas ideias de gerar falsas noções divinas, sempre distantes da Revelação. Só assim veremos que é possível construir uma civilização da liberdade que supera todo medo; da igualdade que vence todo ato que pretende ser superior aos demais e da fraternidade que convida todos a repartirem o mesmo pão e a própria vida em favor do próximo. Por acaso não é isso que deveríamos descobrir nestes tempos de intolerância?

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CUIDAR NÃO É FÁCIL. MAS É NECESSÁRIO.

Convenhamos: cuidar não é tarefa fácil. 

Mais difícil ainda, porque vivemos em tempos de profundas preocupações e solicitações que vão nos tirando o fôlego devido a tantas correrias e dificultando o ânimo para gastar tempo com quem precisa. Tudo vai ficar tão importante e urgente que já não temos mais uma escala de valores e prioridades.

Mas é necessário redescobrir essa vocação e é fundamental para a sobrevivência da espécie e do mundo em que vivemos que tratemos de aprender a cuidar.

Para nós que nos propomos a estar no caminho de Jesus, ele é o modelo e a testemunha fiel do cuidado que o Pai tem com tudo e todos. Salvação, redenção, atenção à vida: todos os atributos que dizemos ver e sentir em Jesus são manifestações desse cuidado que Deus tem com a criação, incluso nós todos.

Mas a tarefa ainda continua sendo difícil...

Lucas no seu evangelho vai apresentar Jesus sempre atento e disponível para encontros que geram cura e cuidado. Sempre tem um gesto ou uma Palavra que revelam essa missão de gerar cuidado ao nosso redor.

Hoje, na continuidade da apresentação de Jesus e sua missão pública, o evangelista vai demonstrar essa atenção num ambiente familiar. A sogra de Pedro estava doente e pediram que Jesus fosse vê-la.

A cena é simples: uma pessoa acamada e uma visita solidária.

Mas a complexidade está no modo como acontece essa visita: Jesus se inclina sobre a pessoa que está doente e ameaça a febre.

Duas questões para se pensar: esse inclinar significa o que do ponto vista do doente? Porque normalmente a visita fica à distância e de longe, até mesmo as consultas médias às vezes são feitas sem nenhum contato com o corpo do doente. Jesus se inclina...

Penso em algumas ideias. Se debruça como gesto de solidariedade?  Se coloca no lugar do doente? Acredita na força do toque e na possibilidade de trocar energia? Ele se inclina e isso não deve ter sido nem à toa e nem deve nos passar despercebido.

Outra coisa: porque se ameaça a febre?

A conversa me parece ser entre ele e a doença e isso me faz pensar que aquela febre não deveria estar ali e portanto, a única forma de poder se livrar dela que estava tirando a energia vital da mulher, era garantir que a pessoa doente soubesse que para vencer o que nos tira a vida é preciso saber o que gera vida em nós.

Não é à toa que logo em seguida Lucas faz questão de mencionar que a mulher se levanta e começa a servir as pessoas. Para uma dona de casa daquele tempo a melhor forma de sentir-se viva e integrada era com os afazeres da casa e podendo cumprir o preceito de acolher bem as pessoas.

Para vencer a febre que sinaliza para a diminuição da força vital é necessário redescobrir o ponto gerador de vida que seja capaz de nos colocar em pé novamente.

Cuidar não é fácil. Mas tem um efeito excepcional na vida de quem recebe cuidado.

Até quando será que conseguiremos ignorar essa prática geradora de vida?


terça-feira, 1 de setembro de 2020

QUE PALAVRA É ESSA?

Os professores de português são unânimes em dizer que quem mais lê, mais sabe interpretar.

Isso porque, nossa leitura constante possibilita que aprendamos a ver camadas que são sobrepostas nos textos e com isso, abrimos uma caixa de ferramentas que ajuda na hora de interpretar. Quem lê pouco, possui pouco repertório para interpretar qualquer texto.

Com os Evangelhos não é diferente.

Quando lemos pouco, ou somente partes que nos acostumamos a ler, diminui nossa capacidade de enxergar as camadas que estão ali e com isso, ficamos na superfície do texto sem avançar na compreensão e interpretação do mesmo.

Quantas vezes nosso olhar percorre as letras e queremos ver o final porque queremos apenas ver o resultado da ação de Jesus sem nos preocupar com os passos dados para se chegar naquele fim. E com isso, nos acostumamos a pensar que o mais importante está no final das linhas e deixamos se perder elementos muito importantes e necessários para nossa fé.

Hoje temos um exemplo na leitura de Lucas capítulo 4. Quase todo mundo lê e cita esse texto para dizer da coisa impressionante que é Jesus livrar o homem do espírito impuro. E é de fato. Mas será que é isso o mais importante? Será que isso não fará mais sentido se olharmos e acompanharmos os passos de Jesus antes de se chegar ao fim?

No próprio texto Lucas diz que o povo se impressiona com a autoridade de Jesus.

É uma pista importante porque, pregadores itinerantes e curadores de espíritos impuros era muito comum no tempo de Jesus. Existiam aos montes. Mas as pessoas sabiam identificar quem tinha ou não a autoridade e no caso de Jesus, esse é um elemento que impressiona.

Podemos nos perguntar enquanto tentamos interpretar: o que Jesus fazia que demonstrava tanta autoridade assim? O que sinalizava para essa capacidade a ponto de chamar a atenção do povo?

Assim, começamos a interpretar o texto e com ele, vai se descortinando a pessoa de Jesus.

Em seguida, Lucas faz questão novamente de apontar o espanto das pessoas que se perguntam QUE PALAVRA É ESSA?

Vejam que a expulsão do espírito impuro está condicionada à força da Palavra que Jesus usa para curar o homem. E aqui está o centro do texto: que Palavra é essa que pode devolver vida? Que Palavra é essa que devolve o sabor de estar vivo para aquele que precisa e anima e encoraja nós que estamos apenas observando? Que Palavra é essa que pode tirar de mim o medo o mal e alimentar o desejo sincero pelo bem? Que Palavra é essa que quando fala inspira a todos a querer viver e se livrar dos espíritos que vão se avolumando por camadas em nossas vidas e tirando de nós a vontade de viver e ser?

O resultado é a cura do homem. Mas os efeitos da cena está por toda parte, em todos os que acompanham e também em nós que depois de dois mil anos, ainda lemos e nos alimentamos dessa Palavra que é cheia de força e de capacidade de gerar vida.

E a partir dessa abertura para a interpretação, vai surgindo também a capacidade de aplicação e aprofundamento do texto na forma de meditação e contemplação.

E ainda nos perguntamos: que Palavra é essa?

Fiquem bem.

O presidente do Brasil mente. Nota conjunta da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e o Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA)

  A   Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas   ( FAMDDI ), e o  Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas   (...