terça-feira, 8 de setembro de 2020

NÃO TENHAIS MEDO

A comunidade cristã por definição tem a missão de ser portadora da boa nova dada em Jesus Cristo.

Essa vocação é parte integrante do nosso pertencer a Cristo e sem ela, não se pode falar de uma comunidade realmente viva. Para que serviria uma comunidade que simplesmente legitima e mantém as coisas como ela são sem ser capaz de fazer novas as coisas?

Infelizmente, pelo processo de institucionalização da fé, acabamos nos detendo mais na manutenção da fé do que na capacidade criadora desse sentimento fundante da experiência: crer passou a ser um repetir fórmulas e portanto, uma perpetuação do modo como as coisas foram sem gerar nenhum sinal de vida.

A força do evangelho nos dá uma nova dimensão dessa dimensão: o que significa pertencer a Cristo e o que isso altera nas relações de poder, de conhecimento, de sentimento, de afetos?

Hoje celebramos a Natividade de Nossa Senhora: olhar para o fato corriqueiro do nascimento de uma menina e ver nisso, sinais de uma profunda transformação da experiência humana do indivíduo e da própria comunidade.

Em primeiro lugar, lemos a genealogia. Essa descrição dos geradores da família normalmente baseada na figura masculina e no seu imaginário poder de fecundação, é valorizado pelo autor dando a dimensão histórica da pertença de Jesus a essa tradição extensa. No entanto, nota-se que Mateus coloca Maria (uma mulher) nessa sequência dando-lhe o mesmo status que se dava aos homens e dizendo em outras palavras, que a mulher também gera e sem ela, não há possibilidade da vida ser mantida.

Esse elemento nos serve para discutir o lugar das mulheres na vida da comunidade. Porque Maria, desde muito cedo, venerada pelas comunidades, serve de contraponto a uma visão patriarcal onde as mulheres seriam apenas e tão somente receptáculo da semente de vida, sem nenhuma contribuição na função geracional.

Mas também dá destaque ao papel social da mulher: não é mais apenas restrita ao ambiente doméstico mas participa das ações que geram benefícios para seu povo, dando destaque por gerar o Messias, aguardado desde sempre e agora, contando com a participação ativa de uma mulher.

Depois, continua a rediscutir o papel do homem.

José é apresentado como um sujeito amedrontado, um pouco receoso e sem grandes convicções.

Fato novo, pois o normal era sempre dar destaque com cores e feitos atribuídos aos homens sem nunca macular sua masculinidade com sentimentos menores. Ter medo seria e ainda é uma expressão de fraqueza. Quantos ainda hoje pensam que sentir medo pode representar a perda da sua hombridade.

A comunidade de Mateus parece bem sintonizada com a vocação que descrevi acima: quer aprender a olhar a vida com olhos novos e  estão dispostos a repensar as relações de gênero não a partir de uma inversão de poderes, mas na busca de valorizar o que cada um pode e de fato contribui para a vida e, dentro do ambiente religioso, para a salvação.

Mateus narra o encontro de Maria com o anjo de uma forma diferenciada da de Lucas. E faz isso, porque quer relatar a José a importância de se reconhecer que Deus escolheu Maria e deu a ela o protagonismo da geração do Salvador  porque isso complementa e inaugura a importância de todos dentro do processo sem deixar ninguém de fora e sem excluir a importância do papel de cada um.

Maria gera a vida tanto quanto os citados na história da salvação. José participa dessa geração como aquele que acolhe, acompanha, apoia e se solidariza com esse feito.

Não há porque sentir medo, nem culpa, nem raiva, nem inveja, nem ciúmes...

A ação de Deus engloba e permite que cada um e cada uma sejam a partir de um novo prisma: Deus está conosco...

Fiquem bem.

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