Sem condições de adquirir novos livros, seja por questões financeiras, seja pela greve dos correios, seja pela dificuldade em escolher pois não tenho tido acesso ao catálogo de novos lançamentos, fui obrigado a revisitar alguns clássicos.
Obrigado é o jeito de dizer, pois é sempre bom reabrir um livro já lido e dele extrair novas chaves com potencial de abertura de novas portas e janelas do pensamento.
Estou terminando de reler o DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA de Étienne de La Boétie, um texto do século XVI e que li durante a graduação lá pelos anos 1987 e agora, fui revisitar pois encontrei uma versão em PDF que me motivou uma revisitada.
O autor motivado pela derrota do povo francês diante dos fiscais do rei e exército nacional onde, dada a derrota, se estabelece um novo e imperioso imposto sobre sal, a saber, grande riqueza dessa época.
A partir desse sentimento de se esfolado pelo palácio, o filósofo vai questionar as atitudes de quem, mesmo sabendo-se servo, aceita e se dispõe a compactuar com a casa do rei. Daí a contradição já sentida no título do opúsculo.
Perguntas do tipo: como posso abrir mão da liberdade de escolha e definição da minha vida me tornando servo de um sistema que opera contra mim? Como se estabelece o poder de um só sobre cidades inteiras? Como um grupo aceita fazer parte de um projeto que descaradamente agride a maioria do povo? Essas e outras serão apresentadas como elemento questionador do ambiente social daquele período do fim da idade média e início da idade moderna.
Grosso modo, o autor vai identificar nesses servos voluntários, um desejo secreto de, servindo sem reclamar ou questionar, criar uma brecha para que também eles possam em algum momento e de alguma forma específica, poderem contar com um grupo de servos voluntários a seu dispor.
Dito de outra forma, o que querem e pensar estar fazendo é justamente abrindo espaço para que um dia tenham eles também em algum nível o poder que hoje ajudam a manter e a ser exercido contra a maioria. E aqui, mais do que julgá-los como sendo responsáveis diretos pelos erros do governo que legitimam, discute-se a responsabilidade moral uma vez que abriram mão da liberdade para apoiar aquele que ora tira a liberdade de todos.
Mas de tudo o que tenho lido, me chama a atenção do elemento que o autor chama de "magia do tirano". Segundo ele, o tirano consegue apreender os afetos das pessoas e grupos a partir de representações do medo, da sabedoria ou da incapacidade de se entender onde ele pretende chegar.
Isso vem ao encontro de alguns fatos que tenho visto na mídia.
Gostaria de me ater apenas ao documentário THE VOW que a HBO tem apresentado por partes aos domingos e que trata do controle exercido por um magnata chamado Keith Raniere que fundou uma espécie de culto de auto ajuda nos EUA e, depois de se expandir através do gerenciamento de inúmeras empresas, acabou sendo desmascarado pela denúncia de ex- membros que foram denunciando e documentando suas denúncias. Mas devo dizer: tanto as chaves de La Boetié quanto a análise sobre esse caso em específico, não são únicas e acabam servindo para olhar sobre outras realidades que merecem cuidado e atenção.
Baseado numa crença bastante duvidosa da capacidade extraordinária do seu criador em ser superior e maravilhosamente mais sábio que os demais, esse grupo experimenta uma espécie de doutrina de auto conhecimento que levaria a pessoa além de saber seus pontos fortes e fracos, a vencer os obstáculos e ainda, serem capazes de se tornarem extraordinariamente bem sucedidos em tudo o que fizerem.
Não precisa ser muito perspicaz para saber que essa premissa atrai principalmente pessoas que estão com suas carreiras estagnadas e que atribuem essa condição, ao fato de terem barreiras internas que precisam ser vencidas para depois vencer as externas, próprias do sistema econômico e ou social em que vivem.
Os depoimentos são assustadores e até certo ponto, vexatórios. Porque obviamente são pessoas brancas, bem formadas, com certo grau de conhecimento e que descrevem com certa ingenuidade o modo como foram sendo absorvidos como massa barata de trabalho onde ganhavam muito pouco e perdiam, a liberdade como seu bem mais precioso.
Como disse acima, a apresentação do documentário está sendo por capítulos e ainda não sei onde vai chegar. Pelo pouco que li na imprensa, parece que a situação chega a ser um caso de polícia porque além de tudo, vai se constatar tráfico humano e escravidão sexual. Mas ainda assim, a dor da narração está no fato de os personagens se sentirem enganados mediante um discurso para servidão voluntária.
Como pode uma produtora de cinema aceitar ser uma escrava (sim é esse o termo usado no descritivo do grupo) de uma mestra que, para poder dormir, tem que ter autorização da mesma? Ou então, dentro de um rito de iniciação permitir que seja marcada com um cauterizador que vai deixar para sempre em seu corpo, uma sigla que remete ao poder da sua mestra sobre ela e o vínculo de um voto de obediência cega para o tal fundador?
Quando a gente ouve a narrativa dessas pessoas vai dando uma aflição porque notadamente se percebe que as coisas não faziam sentido (ao menos fora daquele ambiente), mas todos sem exceção vão cedendo a esses caprichos perdendo assim a sua capacidade de escolha e de tomada de decisão.
Aí invoco La Boetié novamente e parece que esse processo é tão presente no nosso meio (guardando as devidas proporções) que às vezes não nos damos conta de que, para além da maldade daquele que nos seduz, existe a responsabilidade moral que temos em deixar que isso se prolongue e se efetive em nós.
E talvez o mais assustador em assistir ao documentário seja isso: quantas vezes e de quantos modos estamos cedendo nossa liberdade para que o tirano possa mandar e dominar nossas vontades usando-as apenas e tão somente para manutenção do seu poder.
Esse mecanismo de servidão voluntária parece estar na moda. De muitos modos parece que estamos abrindo mão da nossa capacidade de escolha aceitando ser geridos por um déspota que determina qual nossa condição de escravos. Por trás, vão a vontade de servir e ilusão de que um dia, também nós seremos capazes de ter nossa própria corte de serviçais.
Vanitas vanitatum et ominia vanitas.
Fiquem bem.
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