sexta-feira, 4 de setembro de 2020

VINHO NOVO PRECISA DE NOVOS TONÉIS

 Muito significativo que na cultura brasileira por ocasião das festas juninas antigamente se "enfeiavam" as roupas dos dançantes da quadrilha para que se parecessem (será que nos parecíamos?) com os caipiras que viviam e trabalhavam na roça.

Hoje, tudo tão mais sofisticado, quase nem existe mais e até mesmo onde ainda se dança essa tradição, as roupas são feitas para negar aquela vida simples dos roceiros para atribuir-lhes glamour que quase nunca tiveram.

Mas a ideia era simples: roupa velha e usada com retalhos tirados de panos mais exagerados possível para marcar além da deficiência econômica e simplicidade de vida que experimentávamos na roça, a falta de uma estética padrão da cidade.

Hoje não me saiu da cabeça as inúmeras vezes que participei desse tipo de dança. E ao pensar no que o texto do evangelho quer dizer, não consigo diminuir a importância dessas vivências e dessa tradição.

Jesus fala do remendo novo em roupa velha dizendo que isso seria exagero desnecessário porque, estragaria-se a roupa nova para retirar apenas um pedaço de pano e enfeiaria a roupa velha, causando inclusive um certo desconforto porque o remendo repuxaria o pano já cansado.

Fala também do vinho novo, que é sempre muito ácido e, quando colocado no barril deve ser escolhido o novo para que a acidez não destrua o barril e com isso se perca o vinho e os tonéis.

Do que fala Jesus?

Da tentação sempre presente de ouvirmos sua palavra que é sempre algo novo e transformador e querer, por interesse, medo ou comodismo, encaixa-la em estruturas velhas e arcaicas que já não dão conta de encarnar a palavra dita.

Essa tentação, presente ainda em nós, é perigosa porque destitui a força da palavra viva e a acomoda em estruturas já cansadas e desatualizadas para transformar o dizer em fazer.

Nem sempre nos damos conta disso, mas somos expert em fazer isso.

Enchemos a boca para falar: Jesus é amor. Mas dizemos que o amor dele não pode ser dado para quem tem vida desse ou daquele jeito.

Ficamos animados para dizer: Jesus veio chamar a todos. Mas logo tratamos de estabelecer uma lista de possíveis convidados para entrar na festa.

Adoramos dizer que a salvação é para todos. Mas em seguida estabelecemos um padrão de pensamento, comportamento e sentimento que quase ninguém se encaixa e até mesmo aqueles que se sentem encaixados, logo descobrimos que deixaram-se apossar pela hipocrisia.

Esse é pecador. Aquela é perdida. O outro é infiel. A outra já não se salva. E continuamos dizendo que Deus é amor.

São panos recortados de boas ideias e pregados em roupas velhas.

São vinhos acabados de serem fermentados e postos em tonéis velhos prontos para estourarem.

E vejam quantas vezes esses tonéis têm estourado na forma de hipocrisia, escândalos e descumprimentos.

E ainda continuamos tentando enfeiar o nome de Jesus dizendo que é ele quem pede para que façamos assim desse jeito.

Na cruz, provavelmente nunca pensou em morrer por alguns e muito menos, nunca achou que seu sacrifício salvaria alguns apenas. Mas essa ideia mal formada foi ficando dentro das instituições religiosas, dos grupos, das pessoas e é isso que oferecemos ao mundo em pleno século 21.

Até quando?

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