Você já deve ter sido convidado para uma festa elegante e importante. OU até mesmo aquelas mais corriqueiras como um aniversário de um amigo ou mesmo um casamento de um primo, ao receber o convite, logo passa pela nossa cabeça (quando não verbalizamos) COM QUE ROUPA QUE EU VOU?
Por trás dessa pergunta quase natural existem outros fatores que se interligam na hora de se aprontar para o momento festivo: roupa, cabelo, sapato, adereço, perfume, maquiagem, carona, presente para o anfitrião, etc.
Nada de extraordinário nisso. É assim que somos. Ponto e acabou.
Mas já deve ter acontecido com você um outro complicador: chegou o dia da festa, você está todo preparado para ir e de repente, acontece alguma coisa que lhe tira o sossego ou lhe dá um banho de água fria. Muito comum chegarmos ao local do evento todo chic e elegante e as pessoas dizerem QUE CARA É ESSA?
Pois é, ir para uma festa não significa apenas ir. Significa preparar-se e mais ainda: significa criar um clima de celebração que ultrapasse os problemas e possíveis dificuldades que estejamos vivendo. Naqueles momentos juntos com quem amamos, queremos festejar ainda que existam coisas que nos desmotivem ou entristeçam.
Eu sempre penso na vida como uma festa.
Gosto muito da ideia de que somos chamados a festejar os dias com pessoas que amamos e, na medida do possível, colocar nossa melhor roupa e viver momentos de profunda alegria. Claro, existem situações que desagradam ou que entristecem. Mas a festa tem esse poder de suplantar nossas dificuldades e fazer a gente avançar na celebração à qual fomos chamados.
Nessa dinâmica muita gente fica iludido apenas e tão somente com a aparência. Vivem a vida como se ser feliz fosse apenas estar com roupas elegantes ou penteados da moda. É triste porque toda a sua motivação é justamente apenas um amontoado de aparências.
Essas pessoas ficam iludidas que a aparência define o sentido da festa. E quando, por qualquer motivo acontece alguma coisa que desmonta a fantasia, a pessoa fica sem saber o que fazer e perdido, busca respostas rápidas e eficazes apenas para voltar a manter-se enfeitado, sem nenhum aprendizado, sem nenhuma busca de verdade.
Enquanto escrevo, estou me lembrando de uma pessoa que atendi há muitos anos atrás. Com seus 40 anos, vivia uma crise de identidade porque sentia-se envelhecendo e lutava perdidamente contra os efeitos do tempo: pintava cabelos, fazia exercícios estéticos, roupas das mais caras, perfumes somente franceses...
Um belo dia teve um infarto e preciso colocar uma ponte de safena. Foi muito triste e assustador acompanhar aquele momento em que a pessoa tinha apenas as roupas e perfumes e não conseguiu construir mais nada com relação ao profundo do ser. Percebi que nem com a família conseguia manter relações profundas.
Passado o tempo pós- cirurgia, ele voltou a falar comigo e com lágrima nos olhos me disse que nada mais fazia sentido. Me assustei porque ele era um sobrevivente e deveria, no meu julgamento, estar feliz demais por estar vivo e poder continuar a festa da vida.
Mas não. Chorou um choro doído que me comoveu. E em seguida abriu a camisa e mostrou a cicatriz que ficou no peito e com uma verdade cruel me disse: COMO PODEREI SER FELIZ COM ESSA MARCA HORRÍVEL NO MEU CORPO...
Não sei se consigo ser claro com o que me passou pela cabeça, mas aquele jovem de 40 anos estava angustiado porque a partir de agora, ele tinha uma marca de luta e de sobrevivência que enfeiaria a sua festa pra sempre...
Aquilo me chocou e ao mesmo tempo me fez pensar na maneira como a gente tem essa capacidade de não conciliar as roupas bonitas com as marcas de luta e sobrevivência. Queremos a festa e não aceitamos os dissabores. Queremos viver mas não queremos aprender. Queremos festejar sem ter com o que pensar...
A estória das 10 jovens que trazem lamparinas de óleo para esperar a chegada do noivo tem essa dimensão: todas estão convidadas para a festa e com certeza, todas estão bem arrumadas, maquiadas e felizes por fazer parte daquele momento solene da vida dos amigos.
Mas 5 delas estão ali apenas pela festa, sem nenhum comprometimento, tanto é assim que não trazem óleo reserva porque não se comprometeram com o convite que receberam e queriam apenas e tão somente, curtir a vida... Diante da falta do óleo, precisam rever suas posturas e ao sair para comprar mais na cidade, ficam de fora da festa porque a porta se fecha e não são mais reconhecidas pelos noivos...
É triste pensar que estamos apenas vivendo de aparência e sem nenhum compromisso com a vida.
Passamos pelos anos curtindo e reclamando da falta de óleo em nossas lamparinas. Mas não nos comprometemos nem nos esforçamos para manter acesa a luz da espera e a alegria da expectativa. Basta-nos apenas e tão somente reclamar que o óleo acabou.
E depois, quando recebemos a graça de recomeçar e continuar a festa, nos sentimos indignados porque ficamos com marcas de sobrevivência.
Até quando?
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