sábado, 29 de agosto de 2020

O QUE MOVE O MUNDO?

 

Alguém disse uma vez que as três coisas que movem o mundo são a riqueza, o poder e a sedução. Lembro-me que desafiava os seus ouvintes a dar qualquer tipo de exemplo que pudesse fugir da raiz de uma ou mais dessas três coisas. Naquele grupo em que eu estava, não conseguimos pensar em nenhuma citação.

Não se trata de reducionismos, mas as grandes questões humanas passam por esse viés e invariavelmente, nos perguntamos o tempo todo sobre o quanto se ganha, o quanto isso me empodera e ou seduz.

Na liturgia de hoje meditamos o martírio de São João Batista. Novamente nos surge o texto em que sua morte é traçada e o autor do evangelho (Mc 6, 17- 29) faz questão de não só contar o acontecido, mas de apresentar os bastidores da cena.

Por camadas ele vai descrevendo: João estava na prisão por causa de um pedido (sedutor?) de Herodíades. O Batista havia dito a essa senhora que não lhe era permitido casar com o irmão do seu marido (poder?). A senhora em questão odiava o pregador e queria vê-lo morto (riqueza?).

Herodes por sua vez é apresentado como uma pessoa que admirava o Batista considerando-o santo e justo. Mas tinha medo... Gostava de ouvi-lo mas ficava embaraçado por causa dos pensamentos de João. Nesse homem com autoridade encontram-se os três elementos: rico, poderoso e sedutor...

Aconteceu uma festa no palácio.

Herodíades pede para Salomé sua filha dançar e seduzir Herodes. Diante de tamanha formosura lhe é oferecido qualquer coisa que tenha valor: terras, dinheiro, palácios ou até metade do reino. O que ela pede? Poder. Porque ao pedir a cabeça de João, ela invade o espaço do respeito que Herodes tinha pelo Batista e comanda suas decisões. Um homem com muito poder geralmente é um homem muito frágil e sem nenhuma capacidade de escolha.

E assim é servida numa bandeja a cabeça de João.

Para além da nossa contemplação desse martírio faz-se necessário pensar um pouco como essas coisas continuam a acontecer dentro e fora dos palácios.

Com muita facilidade trocamos a ética por interesses.

Com agilidade espantosa criamos estórias para desmoralizar quem não pensa como nós.

Com certa sagacidade ordenamos a morte física algumas vezes e moral em muitos casos só para nos sentir livres dos questionamentos.

Com astúcia ignoramos a verdade e assumimos as fake news como orientação de vida.

Com despreparo absurdo deixamos o medo dominar nossa esperança e nos sentamos nos inúmeros banquetes onde é traçado o destino dos pobres.

Com risos amarelos dizemos que só fizemos porque todo mundo faz.

E por aí vamos deixando ser servida cabeças, pensamentos, ideias, sentimentos, vidas daqueles que não correspondem a nossos interesses e com isso servimos a vida decretando seu fim, inclusive do planeta, ou deixando-a à míngua sem nenhum cuidado.

São João Batista, mártir da verdade, rogai por nós.

Um comentário:

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