Alguém disse uma vez que as três coisas que movem o mundo são
a riqueza, o poder e a sedução. Lembro-me que desafiava os seus ouvintes a dar
qualquer tipo de exemplo que pudesse fugir da raiz de uma ou mais dessas três
coisas. Naquele grupo em que eu estava, não conseguimos pensar em nenhuma
citação.
Não se trata de reducionismos, mas as grandes questões
humanas passam por esse viés e invariavelmente, nos perguntamos o tempo todo
sobre o quanto se ganha, o quanto isso me empodera e ou seduz.
Na liturgia de hoje meditamos o martírio de São João Batista.
Novamente nos surge o texto em que sua morte é traçada e o autor do evangelho
(Mc 6, 17- 29) faz questão de não só contar o acontecido, mas de apresentar os
bastidores da cena.
Por camadas ele vai descrevendo: João estava na prisão por
causa de um pedido (sedutor?) de Herodíades. O Batista havia dito a essa
senhora que não lhe era permitido casar com o irmão do seu marido (poder?). A
senhora em questão odiava o pregador e queria vê-lo morto (riqueza?).
Herodes por sua vez é apresentado como uma pessoa que
admirava o Batista considerando-o santo e justo. Mas tinha medo... Gostava de
ouvi-lo mas ficava embaraçado por causa dos pensamentos de João. Nesse homem
com autoridade encontram-se os três elementos: rico, poderoso e sedutor...
Aconteceu uma festa no palácio.
Herodíades pede para Salomé sua filha dançar e seduzir
Herodes. Diante de tamanha formosura lhe é oferecido qualquer coisa que tenha
valor: terras, dinheiro, palácios ou até metade do reino. O que ela pede?
Poder. Porque ao pedir a cabeça de João, ela invade o espaço do respeito que
Herodes tinha pelo Batista e comanda suas decisões. Um homem com muito poder
geralmente é um homem muito frágil e sem nenhuma capacidade de escolha.
E assim é servida numa bandeja a cabeça de João.
Para além da nossa contemplação desse martírio faz-se
necessário pensar um pouco como essas coisas continuam a acontecer dentro e
fora dos palácios.
Com muita facilidade trocamos a ética por interesses.
Com agilidade espantosa criamos estórias para desmoralizar
quem não pensa como nós.
Com certa sagacidade ordenamos a morte física algumas vezes e
moral em muitos casos só para nos sentir livres dos questionamentos.
Com astúcia ignoramos a verdade e assumimos as fake news como
orientação de vida.
Com despreparo absurdo deixamos o medo dominar nossa
esperança e nos sentamos nos inúmeros banquetes onde é traçado o destino dos
pobres.
Com risos amarelos dizemos que só fizemos porque todo mundo
faz.
E por aí vamos deixando ser servida cabeças, pensamentos,
ideias, sentimentos, vidas daqueles que não correspondem a nossos interesses e
com isso servimos a vida decretando seu fim, inclusive do planeta, ou
deixando-a à míngua sem nenhum cuidado.
São João Batista, mártir da verdade, rogai por nós.
A maioria das vezes a ética é substituída pelos interesses.. É uma pena!!!
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