terça-feira, 25 de agosto de 2020

O DENTRO E O FORA

É paradoxal...

Jesus está no evangelho de hoje lidando com essa nossa condição humana: tentar demonstrar que somos diferentes daquilo que de fato somos.

A hipocrisia não é mais uma condição apenas da pessoa religiosa (ainda que a sociedade acusa somente os religiosos). Ela se tornou arroz com feijão: todos os dias e das mais variadas formas, tentamos demonstrar publicamente uma  figura que na prática não existe e se existe, é muito diferente daquilo que expomos.

Nossa imagem para fora é estimulada pelas expectativas que os outros têm a nosso respeito e sempre na tentativa de responder ao que se espera de nós efetivamente ou por ventura, imaginamos que seria aquilo que os outros gostariam de ver em nós.

Por isso, cedemos aos padrões comportamentais e com certeza, deixamos que os valores tidos como naturais ou normais determinem também nossa essência. Ainda que em muitos casos, esses valores sejam justamente a negação daquilo que aprendemos e, em algum tempo, acreditamos.

Essas contradição do externo que nem sempre revela nosso interior é fonte de muito sofrimento e angústia e, em inúmeras situações, origem de muitas doenças psíquicas que vão se acumulando e se sedimentando em nós. Não é de se espantar que sofremos tanto de depressão, de ansiedade, de insônia e outras tantas doenças...

Jesus no evangelho de hoje questiona esse modus operandi dos  fariseus e tenta demonstrar para quem o ouve e ou lê justamente o quanto isso é pernicioso mas também, o quanto que isso está na base de tanto sofrimento e angústia.

Coamos mosquito da sopa e engolimos camelos...

Paradoxalmente parece até uma bobagem. Mas sejamos claros: não é assim que muitas vezes funcionamos?

Reclamamos de tudo ao nosso redor e dizemos não aceitar. Mas nos curvamos irremediavelmente aos apelos de consumo ou de padrões que vão sendo impostos e que se normatizam em nós e ao nosso redor.

O camelo, são esses inúmeros padrões externos que vão ocupando nosso tempo, energia, mente e coração e deixando-nos incapazes de sermos quem somos ou de viver conforme acreditamos ou podemos ou sentimos.

Não conheço o ambiente corporativo, mas o que vejo em filmes é justamente isso: para agradar a empresa e as regras das empresas, as pessoas abrem mão do descanso, do convívio, do tempo, da alegria somente para poder ganhar mais e tornarem-se aparentemente mais felizes, ainda que há de se questionar o que seria essa felicidade, porque na verdade quase sempre, todo esse sucesso vem cercado de muita solidão...

Viver o espaço do interno, cuidando daquilo que dá sentido à vida, garantindo que os valores não sejam atropelados por contra valores que usurpam nossa afetividade, nosso desejo de sermos bom e nossas capacidades e peculiaridades.

Jesus diz que os fariseus são cego.

Eu não teria dificuldade de acrescentar: cegos somos todos e cada vez mais abrimos mão da capacidade de enxergar e decidir.

Cuidar do interior implica acreditar que o movimento de dentro pra fora faz toda a diferença e quanto mais soubermos fazer isso, mais nosso exterior estará em acordo com nossas expectativas e sentidos.

É verdade que talvez isso desagrade alguns. Bem verdade que talvez tenhamos que romper padrões. Mas com certeza, estaremos bem mais perto da saúde psíquica e com capacidade de ser feliz independente do que pensam ou dizem que somos.

É um desafio. É um caminho. É evangelho!!!

Fiquem bem.

Um comentário:

  1. Quanta verdade em suas palavras padre e obrigado por sempre estar nos ajudando com suas reflexões. Abraço!

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