A liturgia dessa segunda feira nos propõe como evangelho de meditação o texto de Lucas capítulo 4 onde Jesus dá início à sua vida pública. E é um texto profundo, bonito e cheio de nuances que podem nos ajudar a pensar e refletir sobre os acontecimentos da história da salvação, mas também e porque não, sobre a nossa realidade e condição.
Em primeiro lugar, faço uma constatação: Lucas parece fazer questão de apresentar Jesus com uma série de ligações favoráveis para sua missão. Segundo o texto, ele está na sua terra, na sinagoga e é num dia de sábado.
O que significa isso?
Que aparentemente, tudo concorre para que Jesus faça "sucesso" e sua missão dê muitos frutos. Afinal, está com sua gente, no espaço religioso mais importante na comunidade e em sintonia com a tradição da lei mosaica.
Outro fator importante é que Lucas sinaliza que Jesus "fala" com a Palavra. Ele não lê apenas mas é capaz de ler, interpretar e aplicar. Por isso, com muito respeito e profunda consciência, diz que aquilo que acabara de ser lido se cumpre hoje nele. (para Lucas o tempo do hoje é um conceito fundamental para entendermos a boa- nova).
Tudo parecia mais do que correto. Tudo parecia estar favorável a esse início da missão. O que dá errado então?
Em primeiro lugar, seus conterrâneos se lembram que Jesus era dali, filho de José e portanto, alguém como eles. Não é de hoje que as pessoas sempre preferem encontrar seus representantes em pessoas que não os lembrem quem são e ou de onde vieram...
Depois, tem uma espécie de cena comprobatória: querem que Jesus realize ali o que dizem que ele andou realizando em outros lugares. Por trás disso está o desejo de acreditar após terem as provas. E olhando teologicamente para as ações de Jesus podemos afirmar que nunca ele fez coisas para confirmar sua missão, mas sim para traduzir a bondade e misericórdia de Deus para salvar seu povo.
Ainda tem o fato de que Jesus mexe numa espécie de ferida do povo judaico. Elias foi enviado a uma viúva pagã de Sarepta. Eliseu curou um leproso sírio apesar de se ter inúmeros doentes na sua terra.
Parece algo banal, não é mesmo?
Mas esses acontecimentos revelam que a salvação que vem de Deus não estava restrita apenas aos judeus coisa insuportável naquele momento histórico do judaísmo pois havia um nacionalismo exacerbado e uma ruptura com qualquer possibilidade de Deus amar também quem não era judeu.
Isso enfurece os conterrâneos e os motiva a tentar se livrar de Jesus. Querem matá-lo e com isso, silenciar uma voz que pode questionar e ajudá-los a aprofundar a sua experiência de Deus.
Voltando ao início desse texto, podemos perceber que as condições tidas como favoráveis para que tudo aconteça com enorme sucesso para Jesus caem por terra após o início de um aprofundamento daquilo que se crê e como se crê.
Não me lembro de qual música, mas tem um verso que diz EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO... e que diz muito daquilo que vivemos hoje.
Fiquem bem.
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