Sempre fico pensando no significado de estar aos pés da cruz de Jesus. Me impressiona o gesto daquelas poucas pessoas que, segundo João, viram todo o flagelo que Jesus sofreu e ainda assim, permaneciam ali no Calvário contemplando o silêncio que encobriu a terra.
Nessas horas me lembro do meu retiro para ordenação realizado na Casa de Itaici quando, numa das meditações, o pregador nos pediu que ficássemos em contemplação ali na frente de um cruz e deixássemos os sentimentos irem dizendo o que se passava em nossa cabeça. Você sabe né, que é muito mais fácil deixar a cabeça dizer o que se está sentindo... mas a proposta era: deixar os sentimentos dizerem o que a cabeça pensava.
Tenho um grande respeito pelo discípulo amado de Jesus. Recebeu esse título porque provavelmente, se sentia invadido por um amor tão grande que nada poderia deixar de amar e nunca se sentia desconvidado para distribuir amor. Era amado porque sabia amar.
Gosto de pensar nele como uma pessoa com capacidade de escuta (sim, o amor exige escuta) e com ternura nos olhos (porque quem ama enxerga mais profundo).
Essas outras mulheres que João cita como sendo Maria de Cléofas e Maria Madalena são pivôs. Estão no grupo, são citadas e aparecem em várias sugestões de textos, mas não sabemos o que pensam ou sentem. Mas estavam ali e isso poderia lhes render o título de verdadeiras discípulas, porque sem vaidade dos títulos, entenderam perfeitamente o que significava seguir Jesus e não correram da cruz.
E Maria...
Maria é aquela que vai desdobrando a conversa com o anjo e percebendo que o seu sim trouxe não só a alegria de gerar, educar e conhecer Jesus, mas também o desafio de estar com ele ainda nas horas de cruz.
A Igreja muito sabiamente desde o seu nascimento soube ver em Maria essa grandeza da discípula que vai se aprofundando no conhecimento da ação de Deus e sempre lhe deu um lugar privilegiado: é Mãe...
O próprio Jesus vai dizer que ela deve receber João (paradigma dos filhos) como seu filho e como mãe, agora cuidará destes ajudando-os a manterem no caminho do Evangelho.
Contraditoriamente, Maria foi sendo cercada de tantas honras e títulos palacianos que na cultura popular, as pessoas pensam em Maria como rainha, com coroa e cetro e isso lhe tira a dimensão da maternidade cuidadora que Jesus fez questão de frisar no alto da cruz.
Sempre me pergunto também sobre essa necessidade excessiva de colocar esses personagens numa posição de poder, cercados de títulos e honrarias e que pouco ou quase nada dizem da cruz. Porque precisamos que Maria seja reconhecida como rainha se isso não teve nenhuma aplicação do evangelho?
Porque coroamos quando na verdade o estar no pé da cruz é despir-se de toda vaidade e ornamento para estar inteiro diante do mistério?
A história nos dá pistas do porque a tradição seguiu esse caminho. E na prática, nem sei se conseguiremos um dia tirar essa pecha palaciana da fé.
Ainda que não e ainda que agora não nos seja possível mudar, ainda prefiro aquele gesto pequeno e generoso de sentar-me diante do crucificado e ali ficar apenas contemplando esse acontecimento que diz muito do nosso DNA.
Fiquem bem.
Que reflexão linda que nos permite entender a essência da Palavra de Deus. Maria assumiu o sofrimento por amor a nós!
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