Hoje, enquanto preparava a aula de geografia dos sétimos anos, se abateu sobre mim uma tristeza profunda e difícil de curar: ao abrir um email de notícias, me deparei com a foto do pequeno Aylan que foi encontrado morto com o rosto na areia molhada após se afogar no Mar Egeu depois de uma tentativa frustrada de, junto com a família, fugir dos conflitos étnicos e religiosos que pesa sobre a Síria.
Imediatamente o tema que eu deveria abordar hoje e nas próximas aulas ganha novo contorno: taxa de natalidade e taxa de mortalidade.
Segundo a tia do menino, o objetivo da família ao se arriscar em pleno mar bravio num bote inflável estava na "esperança de encontrar um lugar para se ter esperança".
Era pra ser naquela família uma luta pela vida. Afinal um pai e uma mãe não entram num bote com seus 3 filhos para fazer uma aventura marítima. Queriam dar um novo nascimento para aqueles pequenos e achavam que, chegando à Grécia (porta de entrada para a União Européia) poderiam se enquadrar às estatísticas de nascimento, fugindo assim do sopro gelado da morte.
Mas tudo deu errado...
E o pior é que não são os únicos a morrerem nessas travessias trágicas fugindo das guerras, perseguições religiosas e étnicas, ou então tentando avançar para um canto do mundo onde possam encontrar esperança.
Diz o livro didático no qual me baseio para organizar os conteúdos, que taxa de natalidade corresponde ao número de crianças nascidas vivas a cada 1.000 habitantes. E não pude dar alguns saltos para tentar equacionar essas informações com aquela foto trágica e estarrecedora do pequeno Aylan morto na areia da praia.
O que é nascer vivo para milhões de crianças que nascem em meio a conflitos bélicos?
O que significa estar na estatística dos nascimentos por habitantes para crianças que nascem sem ter casa, comida, roupa, escola ou mesmo a garantia de que serão cuidadas por suas família?
E quando são "obrigadas" a fugir, entram em qual taxa: a de natalidade ou mortalidade?
Supondo que cheguem a outro país, vivendo em campos de refugiados, estão vivos ou mortos? Como são contados?
E toda a balbúrdia que a sociedade midiatizada fez com a foto daquele pequeno corpo afundado na areia branca, o que se fez para que não houvessem mais aylans?
O horror que tomou conta do mundo inteiro ao ver aquela triste cena, teve o efeito simples e rápido como uma onda: a indignação durou até a notícia seguinte e, hoje depois de cinco anos, quase nenhum de nós ainda se lembra que aquilo não era ficção e milhares (senão milhões) também entraram para as taxas de mortalidade e não puderam ter o último registro da vida como aconteceu com Aylan.
A tia da criança que é Síria e mora há muitos anos no Canadá deu uma contundente entrevista onde, com a mesma crueza da foto que víamos há 5 anos, nos disse que SUA VOZ JÁ NÃO PODE SALVAR SUA FAMÍLIA. ENTÃO, QUE ELA FALARÁ NA ESPERANÇA DE SALVAR A FAMÍLIA DOS OUTROS...
Que não nos encontre surdos.
Reflexão triste.,e muito real!!
ResponderExcluirTriste.realidade!!!!
ResponderExcluirVidas fragilizadas em busca de lugar do qual foi tirado é na luta da sobrevivência
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