Imagino que todos nós já tenhamos nos olhado no espelho no dia de hoje pelo menos uma vez. Confessemos: foram muitas vezes... e a cada vez que isso se repetia, o objetivo era sempre o mesmo: ter certeza de que nossa aparência estivesse no mínimo apresentável para os afazeres do dia a dia, não é?
Eu tenho essas sensação às vezes: de que ao ler o evangelho, estou sempre me olhando no espelho pra ver se meu ser cristão está ou não minimamente apresentável...
Muitas vezes, esse olhar para a Palavra é direto: eu miro no texto e me vejo em pensamentos, sentimentos e ações. Outras vezes isso é um pouco mais indireto: eu miro nas letras mas a imagem está submersa em um emaranhado de outras imagens que só poderei me ver, se for capaz de contemplar e insistir na busca desse olhar mais atento.
Isso acontece porque a Palavra é composta de camadas e elas só se descortinam, quando encontramos o sentido do que foi dito para nossa vida. Sem isso, ficamos apenas na superficialidade da tinta sem nenhum caminho para o sentido. E Paulo já nos alertou: a letra mata, o que dá vida é o Espírito.
Aquele texto em que Jesus foi convidado e aceitou tomar a refeição na casa do fariseu chamado Simão é um desses momentos em que não basta apenas olhar e se contentar com o que vemos. É preciso aprofundar o olhar e para tanto, faz-se necessário gastar tempo e ter certa ousadia em fazer algumas perguntas que são chaves para aprofundar nas camadas de sentido que o texto nos brinda.
Em primeiro lugar, olhemos para o contexto: casa de um fariseu, com amigos da mesma classe social e religiosa, jantar oferecido para um convidado que não os agradava em nada e que tinha uma série de críticas sendo feitas para a prática farisaica de modo geral e talvez até, algumas diretamente àquelas pessoas que ali estavam.
Jesus não se intimida e nem se sente compelido a não ir. Vai e ao que tudo indica, vai com o firme propósito de estar com as pessoas independentemente do que elas pensam a seu respeito. Vai porque acredita na força e no poder do encontro e, a partir daí, o que se é possível construir como ponte e não como ruptura.
Nessa mesma ocasião entra uma mulher sem ser convidada e que tinha fama de pecadora na cidade.
Ela não só entra. Mas entra e se dirige ao convidado de honra se colocando aos seus pés e chorando sem parar, lava os pés com suas lágrimas e os enxuga com os cabelos.
As perguntas que precisam ser feitos aqui são: quem era essa mulher? porque o rótulo de pecadora se impõe e não sabemos mais nada a seu respeito? que coragem foi essa que tirou a mulher do imobilismo social e fez com que fosse a uma festa sem convite e abordasse Jesus com tamanha intimidade?
Numa leitura superficial nossos julgamentos já se impõem: era prostituta ou adúltera, coisas que dizemos sobre a moral de uma mulher quando queremos diminui-la ou faze-la se sentir imprópria. Observem a quantidade de vezes que nas redes sociais, quando se quer diminuir a importância da ação ou pensamento de uma mulher são usados termos esdrúxulos desse calão ou pior.
O evangelho diz que ela era pecadora.
Nosso juízo moralizante diz que era prostituta.
O evangelho diz que Jesus amplia a leitura dizendo uma parábola: quem vai amar mais o seu senhor, quem teve uma dívida pequena perdoada ou quem teve uma dívida imensa?
Nós continuamos olhando para os possíveis pecados da mulher.
Percebem o quanto nossas leituras dos textos bíblicos podem estar viciadas?
Ao que tudo indica, Jesus ao contar a parábola do perdão das dívidas pequena e grande estava apontando para nossa igualdade em dever de algum modo diante de Deus. Mas nossa mesquinhez fica circunscrita apenas no pecado da mulher e hipótese desse pecado ser de ordem sexual.
E aí vem a aplicação da misericórdia: vocês que pensam ter pecados pequenos e cotidianos sem grande impacto na sua vida e na do mundo, serão perdoados. Mas como pensam pequeno e se sentem mais santos, provavelmente amarão pouco o Senhor que os perdoa. Mas quem traz as marcas profundas do pecado, de qualquer ordem ou grandeza, e se deixa olhar com profundidade por Deus, será também perdoado mas o impacto desse encontro será tão grande e transformador, que aprenderá a amar muito, porque foi profundamente amado pelo amor que não aprisiona.
Agora resta saber se queremos apenas ajeitar um tufo de cabelo que possa estar fora do lugar antes de sair de casa ou se queremos ter toda a vida refletida no espelho de tanto amor.
Dependendo da resposta, será nossa capacidade de amar...
Fiquem bem.
Bom dia padre! A cada dia você nos surpreende com suas reflexões maravilhosas. Precisamos de coragem para nos olhar no espelho todos os dias e ofereceremos o que temos de melhor.
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